Como desenvolver a voz do seu podcast (parte 1)

2 março 2015 Por Ricardo Oliveira
Como desenvolver a voz do seu podcast (parte 1)

Uma das discussões mais frequentes da podosfera é sobre o excesso de podcasts de cultura pop, especialmente de cinema e nerdices diversas. O grande erro desse debate mora na falsa impressão de excesso, maquiando o verdadeiro problema: a indefinição de uma voz para cada um desses podcasts.

A voz é o elemento mais importante do podcast e não é da oralidade do host e participantes que estou falando. A ideia aqui é a identidade e posicionamento do seu conteúdo, delineando rapidamente qual seu propósito através de cada episódio.

Por mais estranho que possa parecer, apenas definir que seu podcast será sobre cultura pop é um erro bastante comum. Na real, amiguinho, se você quiser fazer mais um podcast sobre cinema, hoje, você pode fazer. A questão é: qual a sua voz?

Onde de som da voz na cor preta

Para o tio Kotler, papa do marketing, essa voz é o posicionamento de marca. Estamos falando de ocupar um lugar na mente do seu público sobre aquele determinado assunto, utilizando uma forma/linguagem/estratégia ainda não utilizada pelos concorrentes.

Em algumas situações, definir isso vai ser muito fácil, enxergando oportunidades: se ninguém estiver falando sobre a crise política entre asiáticos e russos, basta começar a gravar episódios sobre isso. Pronto: ocupei um lugar não ocupado antes.

O problema é que, tantas e tantas vezes, o que mais acontece é que tem gente querendo falar sobre as coisas que mais gosta e essas coisas também são amadas por outros – e esses outros já estão fazendo podcasts; e podcasts legais, cheios de audiência.

A primeira pergunta para responder, nesse caso, é: diante de todas as características dos podcasts que já falam sobre esse assunto, quais são as mais marcantes e quais as que não foram observadas?

Voz: forma e conteúdo

Um exemplo bem simples pode ser a partir do novo podcast Zing, do site Brainstorm9, comandado por Alexandre Maron e Luciana Obniski. Já sendo um dos cinco podcasts mais baixados na iTunes, ainda em seu segundo episódio, o Zing traz como elemento de diferenciação o aprofundamento de discussões banais sobre o pop. Logo do podcast Zing, um dos podcasts do site Brasintorm9.com.brExplicar, por exemplo, como a nova dinâmica de estrelas de Hollywood transforma a indústria cultural do cinema e da TV.

Perceba como continua sendo cultura pop – eles só escolheram não fazer review de filmes, buscando um papo sobre o que está por trás dessa cultura. Para quem já ouviu o cast, conseguiu perceber a proximidade que o conteúdo chega a ter de uma discussão acadêmica. E não há grandes diferenças de linguagem até então: vinheta de início e duas pessoas conversando. O que faz do Zing um podcast diferente é o prisma escolhido para abordar seus assuntos.

Esse processo de diferenciação define a voz do Zing; essa voz define quem é seu público e também quem não é; esse público, por consequência, vive um processo de identificação com a voz: se um novo podcast surgir imitando o Zing, vai ser fácil de saber.

A definição da sua voz determina suas pautas, garantindo que você não vai falar do que não cabe nesse posicionamento. Molda também diversos fatores da sua rotina de produção, como o estilo de convidados, identidade visual, estratégias de divulgação. As vinhetas e vírgulas sonoras, por exemplo, podem te ajudar a delinear esse posicionamento para seu público. Para mim, é muito fácil identificar um episódio MRG “às cegas”, mesmo se o trecho que eu estiver ouvindo não tiver um dos seus três âncoras: suas vírgulas sonoras são um apanhado monstruoso de referências pop, contextualizadas a cada linha dita no programa. Elas são parte do que é o “estilo MRG“.

Acontece que não é fácil descobrir essa voz, especialmente se você estiver tratando seu podcast como um hobby. Muitas e muitas vezes, a gente descobre tudo isso fazendo, ao longo de meses ou anos de produção.

Pra te ajudar a desenvolver ou descobrir essa voz, na segunda parte dessa série eu vou trazer as diferenciações de posicionamento e tipos de conteúdo. Por enquanto, fica a pergunta: você já encontrou ou determinou qual a voz do seu podcast? Como fez isso e quais foram os resultados a partir desse desenvolvimento?


Ricardo Oliveira é jornalista e mestre em comunicação pela UFPB (2010). Produz conteúdo independente para web há 15 anos e já teve um ou outro podcast. Um deles já foi até programa de rádio FM. Atualmente é coordenador de mídias digitais das afiliadas Rede Globo na Paraíba, editor do blog Diversitá, do site *catavento e toda sua cinefilia está no canal O Meu Filme Preferido (omeufilmepreferido.com.br).

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