Eu era viciado em podcasts

9 abril 2015 Por Mundo Podcast
Eu era viciado em podcasts

Eu descobri podcasts em 2006 com o podcast The Ricky Gervais. Eu estava em um voo de Dublin para Nova Iorque enquanto ouvia a primeira temporada inteira sem pausas. No voo de volta fiz a mesma coisa, com todos dormindo ao meu redor. Eu tinha 19 anos e minha mãe estava doente em estado terminal.

Quando ela morreu, mesmo ano, eu afundei na cama e fiquei ouvindo o podcast The Ricky Gervais inteiro novamente e conseguia esquecer o que tinha acontecido até amanhã seguinte, quando acordei em meio a pessoas chorando. Os meus fones estavam embaixo dos lençóis mas eu ainda podia ouvir o riso estridente do Gervais, então eu os coloquei de volta e, mais uma vez, a vida foi-se embora.

Quando as coisas melhoraram, eu passei a ouvir podcasts de esportes. Quando eu digo que ouvi não significa que eu baixava um episódio, ouvia uns dias depois e ficava esperando o próximo. Eu baixava todos e ouvia em maratona. Completei 21 anos na época e conheci uma garota por quem me apaixonei. Na época nos encontrávamos para fazer caminhadas ao som de podcasts de futebol durante dois anos. Nenhum dos jogos discutidos era relevante.

Obviamente, ouví-los estava além do meu interesse pelo esporte: talvez algo terapêutico estivesse acontecendo.

James Nolan, jornalista e declarado viciado em podcasts

James Nolan

Ou talvez eu estive me automedicando, bloqueando momentos da minha vida real, que costumava ser dolorosa, substituindo-a por conversas.

Eu disse a mim mesmo, já que todos ouviam música o tempo todo, que eu estava fazendo algo diferente e não havia com o que me preocupar.

Talvez eu esteja me adiantando aqui, mas naquela época podcasts não foram um obstáculo à felicidade. Quando olho para trás, o que mais vejo não é alguém obcecado por podcasts, mas alguém obcecado pela garota que ele amava. Nós ainda fomos à vários encontros e passeios; Eu a visitava na faculdade o tempo todo. Gostávamos da juventude, tudo era festa.



O quadro piorou quando mudamos para a Alemanha. Fomos para lá em 2011 à trabalho e eu descobri os podcasts “WTF com Marc Maron“, “The Joe Rogan Experience” e muitos outros. Eu não tinha amigos, mal sabia falar alemão e odiava meu trabalho, foi legal ouvir pessoas falando inglês para variar. Assim, a cada dia, eu negligenciei a chance de melhorar o meu alemão. Em vez disso, eu me escondi atrás de meus fones de ouvido, esperando que ninguém perguntasse por que eu estava sorrindo, eu nunca poderia explicar auf Deutsch.

A vida parecia demais. Por isso naqueles momentos eu sentia que algo iria me esmagar.

A Alemanha é um “saco”, não porque era a Alemanha mas porque era uma vida que eu nunca me imaginei vivendo. Eu tinha 24 anos, muita coisa ainda era nova para mim. Eu ainda não tinha assimilado tudo, isso confundia minha mente. De quebra, as pessoas com quem trabalhei não sabiam nada sobre mim.

Podcasts, por outro lado, me trouxeram amigos. Seus convidados e hosts me fizeram sentir menos sozinho. Essas pessoas tiveram sucesso, eu pensava, não necessariamente de uma forma monetária, mas porque qualquer que fossem suas dificuldades, eles podiam compartilhá-las e saber que milhares de pessoas ouviriam. Para alguém preso na obscuridade, isso me deu esperança. Eu acreditava que um dia eu também poderia ter a mesma sorte.

fones de ouvido com ondas de som se movendo em direção ao centro.Minha namorada, no entanto, estava se frustrando por tantas vezes me ver em silêncio com fones de ouvido e um par de olhos olhando para o teto. Talvez ela não soubesse o quão forte eu a amava, e que se os papéis fossem invertidos, eu teria vindo às mesmas conclusões que ela.

Nos anos seguintes, desde que voltamos da Alemanha, minha obsessão não diminuiu. Eu dormia ouvindo podcasts, comia ouvindo podcast, fazia tudo ouvindo podcasts. Eu não podia mais existir em silêncio. Paisagens naturais da vida sempre podem ser melhoradas.

Eu entrei em depressão. Minha nova “carreira” como um escritor estava em ruínas, eu não conseguia ser publicado mas, de repente, minha namorada tentou me motivar a fazer coisas simples com ela, como levá-la a jantares. Eu não melhorei. Na verdade, eu estava ouvindo tantos podcasts, que eu senti como se tudo estivesse bem, a vida era realmente dinâmica como as histórias que eu escutava.

Não foi culpa dos podcasts eu ter me viciado tão fortemente. Ao contrário, como alguém que precisa de fuga, eu encontrei algo. Eu amei a paz que eles me deram. O riso e lágrimas. Mas quando eu tirei os fones de ouvido há seis semanas e descobri que minha namorada tinha me deixado, não importava saber sobre o relacionado do podcaster X com seu pai ou o que o podcaster Y estava usando. Minha vida – minha vida real, real – estava em pedaços pelo apartamento que já não compartilhávamos.

Meu vício em podcasts provinha da minha incapacidade de enfrentar a realidade da minha vida. Muitas vezes eu deixei a minha namorada se preocupar com coisas como dinheiro enquanto apertava o play. Quando finalmente percebi que o que eu estava fazendo tinha ido longe demais, eu não me reconheci.

Sound Wave

Eu sempre serei grato aos podcasts. Mas hoje eu não tenho escolha a não ser aceitar que, não importa o quão difícil, devo começar a fazer planos para um melhor futuro. Ir à terapia, aprender a ser mais feliz, não seria uma má ideia.

Agora, toda noite, eu vou para a cama sozinho e tento dormir em silêncio. Embora tenha sido um inferno no início, eu sabia com o passar das horas que eu precisava superar isso. Eu perdi a única coisa que me importava, eu precisava mudar.

As últimas semanas foram melhores. O sono chegou mais fácil noite passada, ali imaginando como a temporada do “Serial” havia acabado, eu poderia um dia ser capaz de não encontrar apenas o que eu tinha perdido, mas algumas coisas que eu nunca tive.

James Nolan é um jornalista irlandês que escreve para o Vice. Siga-o no Twitter: @0jnolan.

Texto traduzido por Thiago Miro. Fonte: Salon.

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