O Limite da Originalidade Podcastal

24 abril 2015 Por Vitor Hugo Mota
O Limite da Originalidade Podcastal

Qual a linha entre a inspiração e a cópia? Vai muito da originalidade da abordagem. Você pode ter inspiração de algo, mas criar algo diferente e se destacar por isso… Por exemplo, vamos pegar uma categoria de podcast muito comum no cenário: Cinema. Para existir esta demanda gigantesca de podcasts de cinema é porque houve um precursor. Não digo que ele deveria ser o único (mesmo porque isto configuraria “crime de monopólio”), mas os que surgiram depois se inspiraram nele para fazer os seus, seja direta ou indiretamente.

Existem os que o superaram, que refinaram sua abordagem e se tornaram algo único e melhor; existem os que se igualaram em importância; mas também existem aqueles que por serem uma cópia da inspiração se tornaram um subproduto sem identidade e sem importância.

Originalidade

“Ah, Seu Mota, seu chato do cacete! Então como é que o cara vira algo original e não uma cópia?”.

Primeiramente, Gafanhoto, saiba que não existe NADA original. Nem você. Tu és o fruto da combinação de dois indivíduos, você não surgiu do nada, de uma vontade divina sem fontes. O que te torna original são as inspirações que você vive na sua vida. Costumo dizer que somos um retalho do que vivemos, uma colagem do que passamos. Mas nem por isso meu retalho tem que esquentar como o que ele era antes ou eu devo compor um cenário do recorte daquela colagem. Na verdade, não devemos ser o que outras pessoas foram.

“Ah, então é aí que eu te pego pelo rabo, Seu Mota: eu posso fazer um programa como o Nerdcast, mas com integrantes diferentes, e dizer que sou original, porque as pessoas são outras e as opiniões são outras”.

Para começar, jovem padawan, no momento em que você cogita “fazer um programa como o podcast ‘x'”, já mostra que você não está se esforçando. O passo correto é você pensar: “Será que eu realmente agregaria algo de DIFERENTE do que foi dito no outro podcast? Ou será que isso é uma necessidade minha de me inserir num meio que gosto, mas para falar a mesma coisa?” O conceito do “Mais-do-Mesmo” é justamente este: a real necessidade de criar algo que já existe aos borbotões. desenho de homem apontando para a esquerda e dizendo: originalSe for fazer algo que já exista, não faça! Pare, pense e conclua: como posso remodelar isso para eu ter algum diferencial, que eu realmente agregue valor? Não faça nada por fazer. Faça com uma missão que outro pelotão já não esteja lutando.

“Então você está dizendo que é errado fazer podcast inspirado, Seu Mota? ‘O Chá dos Cinco’ mesmo é um programa que parece muito com ‘A Voz do Robô’ do MRG”. Bom ponto, nobre diplomata!acho que este é o tipo de discussão que devemos ter. Eu sempre fui um grande fã do MRG justamente pelos seus efeitos sonoros. Acho que eles são a reação do público ou estopim de interação intelectual ante uma informação. Com o tempo o MRG foi diminuindo o número de efeitos sonoros e isto foi me deixando triste, menos inserido no grupo. E logo pensei que outras pessoas poderiam estar na mesma situação que eu. Então foi criado um programa chamado “X-Drops”, sobre listas de melhores e piores que eu apresentava com Wendson Chaper e Arides Luna. Não durou muito porque era Web Rádio, mas foi importante para eu criar “O Chá dos Cinco” que tinha uma proposta de notícias bizarras com efeitos sonoros.

“Mas como fazer isso sem ofender o MRG?”, eu pensei. E a resposta veio simples: vamos dar um cunho cultural ao programa, vamos utilizar como tema datas comemorativas bizarras que existem de verdade e usar isso para interagir com nosso público através das notícias absurdas. O que virou uma brincadeira de adivinhação nos comentários virou premiação para o público vir participar conosco. Mas acima de tudo, o Chá dos Cinco sempre tem a proposta de divulgar a podosfera trazendo podcasts diferentes a cada edição, para difundir a mídia.

Mas acredite, leitor(a): a podosfera é desunida (isso quando não é segregadora). Fomos rejeitados por muitos podcasters a participar (enquanto outros vinham felizes para se divertir conosco), outros começaram a “cagar” (desculpe o termo) na nossa cabeça após entenderem errado a proposta de um spin off mesmo (Podosfera, uma mídia feita de egos)… Mas, acima de tudo, procuramos nos distanciar da nossa inspiração fazendo algo além do que se propunham a fazer. Tanto é que ganhamos a nossa própria cara, nossa identidade.

Você quer ter a sua cara ou ser um clone de alguém, viver à sombra de uma criação de terceiros?

Thiago Miro diz que um podcast não nasce pronto, mas que ele vai se moldando. Acredito que isso é possível, sim. Mas por que ir se moldando se você já pode ter uma cara definida desde o começo? Não faça como o pintor de arte moderna que compõe sua tela e o que sair dali é sua obra-prima; faça como Michelangelo, que já via a forma da estátua que faria diretamente na pedra bruta de mármore. Esforce-se para sair de casa pronto, com uma proposta. Tendo um programa de inspiração, você já saberá que rumos pode tomar.

Porém, o mais legal, é você buscar pelos rumos que o programa da sua inspiração NÃO tomou. Desafie-se! Ouse. PENSE! E acima de tudo, execute na hora certa. Não libere algo que esteja abaixo de um controle de qualidade bom. Ou você acha que todos os podcasts #01 lançados são os primeiros gravados e editados? Raros são assim (falo os de qualidade, ok? Não esses que ficam para traz na evolução). Então experimente, treine e só lance quando tiver certeza que aquilo é único.

Cópia

Falamos muito da inspiração, mas nada muito aprofundado sobre A CÓPIA, né?

Então acho que vale um comparativo antes de partirmos para análise em si. Antes de sermos podcasters, somos ouvintes, assim como todo professor já foi aluno. A gente sabe como o ouvinte se sente amigo da equipe do podcast que escuta e que gostaria de produzir algo para estar naquele grupo (não é a “Panela”. Esse é assunto prum outro post). Para isso, o ouvinte acredita que tendo know how de podcasts ouvidos estaria preparado para fazer seu próprio podcast. Aí ele vem e pode acertar de cara (o que é muito raro, normalmente executado por pessoas que estudaram muito antes) ou pode ser muito, muito vergonhoso (o que é mais do que comum.

Podcasts vergonha-alheia: quem nunca ouviu um que quebre o primeiro feed).

E normalmente este que é uma cópia… tende a uma boa repercussão de público porque ele simula o que os outros estão a fim de continuar escutando, o que gera uma estagnação intelectual e moral muito grande na podosfera. Mas esse assunto é um papo que levamos num post anterior.

A cópia de um podcast em seu formato, proposta e até modelos de equipe não só é uma ofensa ao seu público como também uma ofensa a seus ~colegas~ de mídia, pois você se torna um perpetuador de uma ideia engessada. A cópia é um câncer criativo que limita as pessoas e inflaciona o seu produto. A inflação torna o produto excessivo e colocando no balaio programas bons, pois ele será julgado pelo todo.

bonecos masculinos de cor preta enfileirados lado-a-lado com um único na cor laranja e os dizeres: seja diferente

Inclusive, este é um dos motivos pelos quais a mídia podcast tem um crescimento tão moroso no Brasil: pois o que não é tratado a sério, não é levado a sério. Então a dica para se criar um podcast é: seja participante de um podcast antes, contribua com conteúdo: escreva, monte pauta, aprenda a editar, faça vitrines, monte posts, crie feeds manuais, dê suporte ao host, seja um líder carismático e acima de tudo TENHA CERTEZA que você tem algo bom a falar.

Quando você entende todas as etapas (como num estágio mesmo) você vai entender o trabalho que dá criar e manter um podcast e terá muito mais respeito por ele. E, acima de tudo, não será uma cópia de algo que já existe. Ele será uma inspiração de uma vivência.

No fim das contas, inspire-se, mas tenha certeza de não tomar uma decisão precipitada. Como diz Paulo Tiefenthaler: “Quer trepar sem camisinha? Delícia… mas pode dar merda!