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Podcasts e a integraçío nacional

27 outubro 2014 Por Lucas Conrado
Podcasts e a integraçío nacional

Me formei em Jornalismo no ano passado (2013), pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ao longo de toda faculdade, quando estudava a história da comunicaçío no paí­s, me deparava com uma certa frequência com uma linha de pensamento: “a televisío promoveu a integraçío nacional“. Ou “por meio da televisío, construí­mos uma identidade nacional”. Essa frase sempre ficou na minha cabeça, ou melhor, entalada na minha garganta.

Leitores, vamos fazer um exercí­cio mental. Quantos programas veiculados nacionalmente – na TV aberta – sío produzidos fora de Sío Paulo e do Rio de Janeiro? Agora, de cabeça, só consigo pensar no Vrum, que passa nas manhís de domingo do SBT, produzido em Belo Horizonte (também Sudeste). Eventualmente, deve ter algum noticiário econômico ou polí­tico produzido em Brasí­lia. Mas, arrisco a dizer, 98% da produçío da TV aberta nacional (ou eu deveria dizer “nacional”?) sío feitas aqui no Rio ou em Sío Paulo.

Está certo que há todo um contexto histórico e econômico por trás, mas nío é estranho dizer que a televisío que é produzida em praticamente apenas dois estados promove a integraçío nacional? Daqui do Rio, eu posso pesquisar na internet, livros, conversar com os nativos, para produzir um conteúdo, por exemplo, sobre Goinia. Mas nunca vai ser a mesma coisa de um goianiense fazendo o mesmo conteúdo. Posso ter a intençío de fazer o retrato mais exato possí­vel de Goiás, mas nunca vai ser o mesmo que o Jadson Moura (@JadsonMoura) ou o Fernando Minotto (@Fminotto) falando do estado, por exemplo.

tirinha com expressões tí­picas de diversos lugares do brasil como Bah!, ôxe e Uai.Isso sem contar com os estereótipos de mineiros, gaúchos, nordestinos (porque para grande parte da mí­dia do Centro-Sul do paí­s nío há Paraí­ba, Piauí­, Alagoas, Ceará… há a entidade Nordeste) que vemos todos os dias em novelas, seriados ou programas humorí­sticos. Mas isso é outra história.

Uma das coisas que mais me incomoda na “integraçío nacional” feita pela televisío é o tal do sotaque neutro. Me doem os ouvidos e o coraçío assistir a uma rara reportagem de Fortaleza feita com o tal do sotaque neutro. Ou a outra pouco menos rara feita em Porto Alegre da mesma forma. Por que dessa necessidade de um “sotaque neutro”? E quem impõe a neutralidade do sotaque?

Tentei debater isso no meu Facebook. Nascido em Minas, criado em Sío Paulo e morando no Rio de Janeiro há 11 anos, boa parte dos meus contatos nas redes sociais sío daqui do sudeste. Praticamente todas as pessoas que trabalham com comunicaçío que eu conheço sío cariocas. E elas foram unnimes na resposta: “O sotaque é neutro porque a gente nío entenderia nada que um gaúcho ou um nordestino (olha a entidade Nordeste aí­ novamente) falam”.

Será que é isso mesmo? Ou melhor, será que é só isso mesmo?

Atualmente, devo ouvir uns 20 podcasts com uma certa regularidade. Podcasts feitos por pessoas de Sío Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná, Espí­rito Santo, Goiás, Amazonas, Bahia, Ceará, Pernambuco… certamente, estou cometendo injustiça e esquecendo alguns estados. Mas essas sío as terras dos podcasters que pensei agora, sem um grande esforço.

A grande maioria dos podcasters nío sío profissionais de comunicaçío. Nío fizeram sessões com fonoaudiólogos e nío escondem seus sotaques. Nío tentam fazer o tal do sotaque neutro. E, vou contar uma novidade para vocês: entendo TUDO o que falam! Vocês estío lendo esse texto aqui no Mundo Podcast, entío – imagino eu – já ouviram o Thiago Miro falar pelo menos uma vez! Sabem que o cara tem um dos sotaques mais carregados da podosfera brasileira! E dá pra entender tudo que ele fala. Assim como dá pra entender o Eduardo Salles, a Bruna Evelyn, o Bruno Assis, o Marcelo Zaniolo, a Clarice Sena, o Randal Bergamasco… cada um com seu sotaque, nada de neutralidade!

mapa mundi com 1 pessoa em cima de cada continente com linhas pontilhadas fazendo uma integraçío entre todas.

Aí­ partimos para outra questío que acho ainda mais grave: o preconceito. Já li/ouvi o Thiago relatar várias vezes ouvintes dizerem que nío querem mais ouvir o Telhacast por causa do sotaque dele. Fiquei estarrecido com o relato do Silmar Geremia (@silmargeremia). Um radialista entrou em contato com ele demonstrando interesse em levar o Scicast para seu veí­culo. Mas ele fez uma ressalva, havia um participante do podcast que tinha sotaque nordestino. Seria melhor que ele tirasse o sotaque, ou que nem participasse do programa. Gente, o que há de errado com o mundo? Por que o radialista nío reclamou do sotaque catarinense do próprio Silmar? Do sotaque carioca do Cardoso? Ou do paulista do ítila? Por que o problema é o sotaque “do Nordeste”?

E, será que esse “nío entendimento” ou mesmo o estranhamento dos sotaques nío é simplesmente uma falta de costume? Será que se as pessoas nío ouvissem mais os diferentes sotaques brasileiros (sotaque de verdade, nío o que a gente ouve na TV), a gente nío aprenderia a entendê-los? Acho que é mais fácil entender um cearense falando do que um americano. E estamos carecas de assistir a seriados sem legenda. Mais uma vez, por que a neutralidade do sotaque?

Que tipo de “integraçío nacional” é essa que a mí­dia tradicional tenta construir? Integraçío nacional que é feita pela populaçío de dois ou três estados? O sotaque é apenas uma pontinha do iceberg. Como falei lá em cima, a populaçío dos outros estados, mesmo por meio das afiliadas dos grandes canais de TV ou emissoras de rádio têm pouca ou nenhuma voz. Simplesmente nío dá para construir uma integraçío, uma identidade nacional assim!

É nesse ponto que passo a gostar ainda mais dos podcasts. Apesar de estar afastado da produçío/ediçío por problemas técnicos, sou um grande entusiasta da mí­dia. O podcast promove a verdadeira integraçío nacional. Pela facilidade de produçío, ediçío e distribuiçío, permite uma multiplicidade maior de vozes. Um maior compartilhamento de identidades. Mineiros, baianos, goianos, amazonenses, catarinenses, paulistas e cariocas, todos têm vez e voz. Todos compartilham suas realidades, seus sotaques, suas visões de mundo. Consigo saber muito melhor o que acontece de norte a sul do paí­s do que eu conseguiria pela televisío.

Infelizmente, por questões históricas, econômicas, sociais ou mesmo por falta de vontade, a produçío da grande mí­dia fica restrita a um espaço muito pequeno. Que venham cada vez mais podcasts, para quebrarmos essas barreiras e promovermos a verdadeira integraçío nacional!