Po(D)ema #102 - Apolo e Dafine - Mundo Podcast 

Po(D)ema #102 – Apolo e Dafine

17 dezembro 2014 Por Mundo Podcast
Po(D)ema #102 – Apolo e Dafine
  • Texto: Apolo e Dafine
  • Autor: Thomas Bulfinch
  • Interpretaçío: Igor Guedes (@professorigor)
  • Música: Enthroned on Mount Olympus e The Splendor of Athens, trilhas de God of War
  • Duraçío: 6min06s

Arte da vitrine: Rodrigo Sena

Igor Guedes - Apolo e Dafine

Apolo e Dafine

Dafne foi o primeiro amor de Apolo.

Nío surgiu por acaso, mas pela malí­cia de Cupido.Apolo viu o menino brincando com seu arco e suas setas e, estando ele próprio muito envaidecido com sua recente vitória sobre Pí­ton, disse-lhe:

-” Que tens a fazer com armas mortí­feras, menino insolente? Deixe-as para as míos de quem delas sejam dignos. Vê a vitória que com elas alcancei, contra a vasta serpente que estendia o corpo venenoso por grande extensío da planí­cie! Contenta-te com tua tocha, criança, e atiça tua chama, como costumas dizer, mas nío te atrevas a intrometer-te com minhas armas.

O filho de Afrodite ouviu essas palavras e retrucou:
-” Tuas setas podem ferir todas as outras coisas, Apolo, mas as minhas podem ferir-te.

Assim dizendo, pôs-se de pé numa rocha do Parnaso e tirou da aljava duas setas diferentes, uma feita para atrair o amor; outra, para afastá-lo. A primeira era de ouro e tinha a ponta aguçada, a segunda, de ponta rombuda, era de chumbo. Com a seta de ponta de chumbo, feriu a ninfa Dafne, filha do rio-deus Peneu, e com a de ouro feriu Apolo no coraçío. Sem demora, o deus foi tomado de amor pela donzela e esta sentiu horror í  idéia de amar. Seu prazer consistia nas caminhadas pelos bosques e na caça. Muitos amantes a buscavam, mas ela recusava a todos, passeando pelos bosques, sem pensar em Cupido nem em Himeneu.
Cupido

Seu pai muitas vezes lhe dizia: “Filha, deves dar-me um genro, dar-me netos.” Temendo o casamento como a um crime, com as belas faces coradas, ela se abraçou ao pai, implorando: “Concede esta graça, pai querido! Faze com que eu nío me case jamais!”

A contragosto, ele consentiu, observando, ao mesmo tempo, porém: -” O teu próprio rosto é contrário a este voto.

Apolo amou-a e lutou para obtê-la; ele, que era o oráculo de todo o mundo, nío foi bastante sábio para prever o seu próprio destino. Vendo os cabelos caí­rem desordenados pelos ombros da ninfa, imaginou: “Se sío tío belos em desordem, como deverío ser quando arranjados?” Viu seus olhos brilharem como estrelas; viu seus lábios, e nío se deu por satisfeito só em vê-los. Admirou suas míos e os braços, nus até os ombros, e tudo que estava escondido da vista imaginou mais belo ainda. Seguiu-a; ela fugiu, mais rápida que o vento, e nío se retardou um momento ante suas súplicas. -” Pára, filha de Peneu! -” ele exclamou. Nío sou um inimigo. Nío fujas de mim, como a ovelha foge do lobo, ou a pomba do milhafre. É por amor que te persigo. Sofro de medo que, por minha culpa, caias e te machuques nestas pedras. Nío corras tío depressa, peço-te, e correrei também mais devagar. Nío sou um homem rude, um campônio boçal. Júpiter é meu pai, sou senhor de Delfos e Tenedos e conheço todas as coisas, presentes e futuras. Sou o deus do canto e da lira. Minhas setas voam certeiras para o alvo. Mas, ah!, uma seta mais fatal que as minhas atravessou-me o coraçío! Sou o deus da medicina e conheço a virtude de todas as plantas medicinais.

Apolo e Dafne

Ah! Sofro de uma enfermidade que bálsamo algum pode curar! A ninfa continuou sua fuga, nem ouvindo de todo a súplica do deus. E, mesmo ao fugir, ela o encantava. O vento agitava-lhe as vestes e os cabelos desatados lhe caí­am pelas costas. O deus sentiu-se impaciente ao ver desprezados os seus rogos e, excitado por Cupido, diminuiu a distncia que o separava da jovem. Era como um cío perseguindo uma lebre, com a boca aberta, pronto para apanhá-la, enquanto o débil animal avança, escapando no último momento. Assim voavam o deus e a virgem: ela com as asas do medo; ele com as do amor. O perseguidor é mais rápido, porém, e adianta-se na carreira: sua respiraçío ofegante, já atinge os cabelos da ninfa. As forças de Dafne começam a fraquejar e, prestes a cair, ela invoca seu pai, o rio-deus: -” Ajuda-me, Peneu! Abre a terra para envolver-me, ou muda minhas formas, que me têm sido tío fatais!
Mal pronunciara estas palavras, um torpor lhe ganha todos os membros; seu peito começou a revestir-se de uma leve casca; seus cabelos transformaram-se em folhas; seus braços mudam-se em galhos; os pés cravam-se no chío, como raí­zes; seu rosto tornou-se o cimo do arbusto, nada conservando do que fora, a nío ser a beleza.

Apolo abraçou-se aos ramos da árvore e beijou ardentemente a madeira. Os ramos afastaram-se de seus lábios.

-” Já que nío podes ser minha esposa -” exclamou o deus -” serás a minha planta preferida. Usarei tuas folhas como coroa; com elas enfeitarei minha lira e minha aljava; e quando os grandes conquistadores caminharem para o descanso de glória, í  frente dos cortejos triunfais, serás usada como coroas para suas frontes. E, tío eternamente jovem quanto eu próprio, também hás de ser sempre verde e tuas folhas nío envelhecerío.