Po(D)ema #106 – Nobres e Gentios

2 março 2015 Por Mundo Podcast
Po(D)ema #106 – Nobres e Gentios
  • Texto: Nobres e Gentios
  • Autor: Igor Guedes
  • Interpretação: Igor Guedes (@professorigor)
  • Música: Sucre’s Dilema – Trilha da série Prison Break
  • Duração: 1min50s

Arte da vitrine: Rodrigo Sena

Igor Guedes - O Maior Revolucionário de todos os tempos

Nobres e Gentios

Jerônimo de Vasconcelos, nobre português, encontrava-se à beira da morte em 12 de setembro de 1492. Senhor de vastos domínios, levara uma vida entregue aos vícios da carne. Agora, senil, encastelado em sua própria fidalguia, enredava-se em um emaranhado de culpas alimentadas pelo imaginário cristão.

As cortinas negras poupavam-lhe da luz e alegria da vida e enquanto um pároco gordo entoava orações ele se lembrava dolorosamente de seus treze filhos bastardos, entregues à própria sorte.

Sua melancolia era longa, odiosa, tediosa, sufocante. Aquele claustro estava repleto de símbolos de sua fé que a todo instante o remetiam para seus próprios pecados. Ele odiava aquelas criadas que lhe lançavam um olhar de pena e desdém. Odiava o pároco que comia de sua dispensa e lambia os dedos e o canto da boca engordurados.

Desde que adoecera, todos tinham relaxado em suas tarefas e por todo casarão pairava um certo cheiro de mofo. Aquele cheiro decrépito lhe causava náuseas. Naquele instante, entrara o odioso cirurgião-barbeiro. Aplicou-lhe sanguessugas negras e roxas sobre a pele. Aos poucos sentia sua energia vital se esvaindo por meio das ventosas.

O casarão senhorial ficava exatamente no centro de suas terras. Moinhos, celeiros, enormes estrebarias, uma farta dispensa repleta de especiarias e bons vinhos. Tudo, porém, lhe parecia distante.

Sua pele tornou-se cinza e sem vida. Sua mulher, que lhe tratava com sinceridade desvelada desde que adoecera, sabia naquele instante que a hora final tinha chegado. Ele notou que a proximidade de sua morte lhe trazia satisfação. Uma satisfação que parecia emanar daquela criança de doze anos que ele havia desposado há pouco mais de uma década. Fizera isso sem nenhum sentimento, interessado apenas na riqueza mercantil de seu sogro.

Aos poucos seu quarto fúnebre ficou repleto de homens pálidos em luto. Falso luto. Jerônimo, imerso em sua escuridão semiconsciente sabia que ali, em meio a nobreza, ninguém alimentava por ele nobres sentimentos. Em meio a toda riqueza que conseguira acumular em cinquenta anos, com o coração repousando sobre as coisas que conquistou e não sobre as pessoas que o velavam, deu seu último suspiro imerso em angústia e desespero.

Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, com a boca ainda marcada pelo doce dos cajus, pleno de seus desejos, entre o verde das matas e o azul da enseada de Botafogo, Jaci exercitava seu paganismo primitivo, perguntava-se sobre os misteriosos formatos das nuvens. Estava deitado nas areias da praia encarando o céu, totalmente nua.

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