Po(D)ema #109 - O ovo e a galinha - Mundo Podcast 

Po(D)ema #109 – O ovo e a galinha

12 março 2015 Por Mundo Podcast
Po(D)ema #109 – O ovo e a galinha
  • Texto: O ovo e a galinha
  • Autor: Clarice Lispector
  • Interpretaçío: Kell Bonassoli (@outrodelirio)
  • Música: If I Had a Chiken – Kevin MacLeod
  • Duraçío: 19min58s

Arte da vitrine: Rodrigo Sena

Clarice Lispector - O Ovo e a Galinha

Clarice Lispector

O ovo e a galinha

De manhí na cozinha sobre a mesa vejo o ovo.

Olho o ovo com um só olhar. Imediatamente percebo que nío se pode estar vendo um ovo. Ver o ovo nunca se mantêm no presente: mal vejo um ovo e já se torna ter visto o ovo há três milênios. – No próprio instante de se ver o ovo ele é a lembrança de um ovo. – Só vê o ovo quem já o tiver visto. – Ao ver o ovo é tarde demais: ovo visto, ovo perdido. – Ver o ovo é a promessa de um dia chegar a ver o ovo. – Olhar curto e indivisí­vel; se é que há pensamento; nío há; há o ovo. – Olhar é o necessário instrumento que, depois de usado, jogarei fora. Ficarei com o ovo. – O ovo nío tem um si-mesmo. Individualmente ele nío existe.

Ver o o vo é impossí­vel: o ovo é supervisí­vel como há sons supersônicos. Ninguém é capaz de ver o ovo. O cío vê o ovo? Só as máquinas vêem o ovo. O guindaste vê o ovo. – Quando eu era antiga um ovo pousou no meu ombro. – O amor pelo ovo também nío se sente. O amor pelo ovo é supersensí­vel. A gente nío sabe que ama o ovo. – Quando eu era antiga fui depositária do ovo e caminhei de leve para nío entornar o silêncio do ovo. Quando morri, tiraram de mim o ovo com cuidado. Ainda estava vivo. – Só quem visse o mundo veria o ovo. Como o mundo o ovo é óbvio.

O ovo nío existe mais. Como a luz de uma estrela já morta, o ovo propriamente dito nío existe mais. – Você é perfeito, ovo. Você é branco. – A você dedico o começo. A você dedico a primeira vez.

Ao ovo dedico a naçío chinesa.

O ovo é uma coisa suspensa. Nunca pousou. Quando pousa, nío foi ele quem pousou. Foi uma coisa que ficou embaixo do ovo. – Olho o ovo na cozinha com atençío superficial para nío quebrá-lo. Tomo o maior cuidado de nío entendê-lo. Sendo impossí­vel entendê-lo, sei que se eu o entender é porque estou errando. Entender é a prova do erro. Entendê-lo nío é o modo de vê-lo. – Jamais pensar no ovo é um modo de tê-lo visto. – Será que sei do ovo? É quase certo que sei. Assim: existo, logo sei. – O que eu nío sei do ovo é o que realmente importa. O que eu nío sei do ovo me dá o ovo propriamente dito. – A Lua é habitada por ovos.

O ovo é uma exteriorizaçío. Ter uma casca é dar-se.- O ovo desnuda a cozinha. Faz da mesa um plano inclinado. O ovo expõe. – Quem se aprofunda num ovo, quem vê mais do que a superfí­cie do ovo, está querendo outra coisa: está com fome.

O ovo é a alma da galinha. A galinha desajeitada. O ovo certo. A galinha assustada. O ovo certo. Como um projétil parado. Pois ovo é ovo no espaço. Ovo sobre azul. – Eu te amo, ovo. Eu te amo como uma coisa nem sequer sabe que ama outra coisa. – Nío toco nele. A aura de meus dedos é que vê o ovo. Nío toco nele – Mas dedicar-me í  visío do ovo seria morrer para a vida mundana, e eu preciso da gema e da clara. – O ovo me vê. O ovo me idealiza? O ovo me medita? Nío, o ovo apenas me vê. É isento da compreensío que fere. – O ovo nunca lutou. Ele é um dom. – O ovo é invisí­vel a olho nu. De ovo a ovo chega-se a Deus, que é invisí­vel a olho nu. – O ovo terá sido talvez um tringulo que tanto rolou no espaço que foi se ovalando. – O ovo é basicamente um jarro? Terá sido o primeiro jarro moldado pelos etruscos ? Nío. O ovo é originário da Macedônia. Lá foi calculado, fruto da mais penosa espontaneidade. Nas areias da Macedônia um homem com uma vara na mío desenhou-o. E depois apagou-o com o pé nu.

O ovo é coisa que precisa tomar cuidado. Por isso a galinha é o disfarce do ovo. Para que o ovo atravesse os tempos a galinha existe. Míe é para isso. – O ovo vive foragido por estar sempre adiantado demais para a sua época. – O ovo por enquanto será sempre revolucionário. – Ele vive dentro da galinha para que nío o chamem de branco. O ovo é branco mesmo. Mas nío pode ser chamado de branco. Nío porque isso faça mal a ele, mas as pessoas que chamam ovo de branco, essas pessoas morrem para a vida. Chamar de branco aquilo que é branco pode destruir a humanidade. Uma vez um homem foi acusado de ser o que ele era, e foi chamado de Aquele Homem. Nío tinham mentido: Ele era. Mas até hoje ainda nío nos recuperamos, uns após outros. A lei geral para continuarmos vivos: pode-se dizer -œum rosto bonito-, mas quem disser -œO rosto-, morre; por ter esgotado o assunto.

Com o tempo, o ovo se tornou um ovo de galinha. Nío o é. Mas, adotado, usa-lhe o sobrenome. – Deve-se dizer -œo ovo da galinha-. Se eu disser apenas -œo ovo-, esgota-se o assunto, e o mundo fica nu. – Em relaçío ao ovo, o perigo é que se descubra o que se poderia chamar de beleza, isto é, sua veracidade. A veracidade do ovo nío é verossí­mil. Se descobrirem, podem querer obrigá-lo a se tornar retangular. O perigo nío é para o ovo, ele nío se tornaria retangular. (Nossa garantia é que ele nío pode: nío poder é a grande força do ovo: sua grandiosidade vem da grandeza de nío poder, que se irradia como um nío querer.) Mas quem lutasse por torná-lo retangular estaria perdendo a própria vida. O ovo nos expõe, portanto, em perigo. Nossa vantagem é que o ovo é invisí­vel. E quanto aos iniciados, os iniciados disfarçam o ovo.

Quanto ao corpo da galinha, o corpo da galinha é a maior prova de que o ovo nío existe. Basta olhar para a galinha para se tornar óbvio que o ovo é impossí­vel de existir.

E a galinha? O ovo é o grande sacrifí­cio da galinha. O ovo é a cruz que a galinha carrega na vida. O ovo é o sonho inatingí­vel da galinha. A galinha ama o ovo. Ela nío sabe que existe o ovo. Se soubesse que tem em si mesma o ovo, perderia o estado de galinha. Ser galinha é a sobrevivência da galinha. Sobreviver é a salvaçío. Pois parece que viver nío existe. Viver leva a morte. Entío o que a galinha faz é estar permanentemente sobrevivendo. Sobreviver chama-se manter luta contra a vida que é mortal. Ser galinha é isso. A galinha tem o ar constrangido.

É necessário que a galinha nío saiba que tem um ovo. Senío ela se salvaria como galinha, o que também nío é garantido, mas perderia o ovo. Entío ela nío sabe. Para que o ovo use a galinha é que a galinha existe. Ela era só para se cumprir, mas gostou. O desarvoramento da galinha vem disso: gostar nío fazia parte de nascer. Gostar de estar vivo dói. – Quanto a quem veio antes, foi o ovo que achou a galinha. A galinha nío foi sequer chamada. A galinha é diretamente uma escolhida. – A galinha vive como em sonho. Nío tem senso de realidade. Todo o susto da galinha é porque estío sempre interrompendo o seu devaneio. A galinha é um grande sono. – A galinha sofre de um mal desconhecido. O mal desconhecido é o ovo. – Ela nío sabe se explicar: -œ sei que o erro está em mim mesma-, ela chama de erro a vida, -œnío sei mais o que sinto-, etc.

-œEtc., etc., etc.,- é o que cacareja o dia inteiro a galinha. A galinha tem muita vida interior. Para falar a verdade a galinha só tem mesmo é vida interior. A nossa visío de sua vida interior é o que chamamos de -œgalinha-. A vida interior na galinha consiste em agir como se entendesse. Qualquer ameaça e ela grita em escndalo feito uma doida. Tudo isso para que o ovo nío se quebre dentro dela. Ovo que se quebra dentro de galinha é como sangue.

A galinha olha o horizonte. Como se da linha do horizonte é que viesse vindo um ovo. Fora de ser um meio de transporte para o ovo, a galinha é tonta, desocupada e mí­ope. Como poderia a galinha se entender se ela é a contradiçío de um ovo? O ovo ainda é o mesmo que se originou na Macedônia. A galinha é sempre tragédia mais moderna. Está sempre inutilmente a par. E continua sendo redesenhada. Ainda nío se achou a forma mais adequada para uma galinha. Enquanto meu vizinho atende ao telefone ele redesenha com lápis distraí­do a galinha. Mas para a galinha nío há jeito: está na sua condiçío nío servir a si própria. Sendo, porém, o seu destino mais importante que ela, e sendo o seu destino o ovo, a sua vida pessoal nío nos interessa.

Dentro de si a galinha nío reconhece o ovo, mas fora de si também nío o reconhece. Quando a galinha vê o ovo pensa que está lidando com uma coisa impossí­vel. É com o coraçío batendo, com o coraçío batendo tanto, ela nío o reconhece.

De repente olho o ovo na cozinha e vejo nele a comida. Nío o reconheço, e meu coraçío bate. A metamorfose está se fazendo em mim: começo a nío poder mais enxergar o ovo. Fora de cada ovo particular, fora de cada ovo que se come, o ovo nío existe. Já nío consigo mais crer num ovo. Estou cada vez mais sem força de acreditar, estou morrendo, adeus, olhei demais um ovo e ele me foi adormecendo.

A galinha nío queria sacrificar a sua vida. A que optou por querer ser -œfeliz-. A que nío percebia que, se passasse a vida desenhando dentro de si como numa iluminura o ovo, ela estaria servindo. A que nío sabia perder-se a si mesma. A que pensou que tinha penas de galinha para se cobrir por possuir pele preciosa, sem entender que as penas eram exclusivamente para suavizar, a travessia ao carregar o ovo, porque o sofrimento intenso poderia prejudicar o ovo. A que pensou que o prazer lhe era um dom, sem perceber que era para que ela se distraí­sse totalmente enquanto o ovo se faria. A que nío sabia que -œeu- é apenas uma das palavras que se desenham enquanto se atende ao telefone, mera tentativa de buscar forma mais adequada. A que pensou que -œeu- significa ter um si-mesmo. As galinhas prejudiciais ao ovo sío aquelas que sío um -œeu- sem trégua. Nelas o -œeu- é tío constante que elas já nío podem mais pronunciar a palavra -œovo-. Mas, quem sabe, era disso mesmo que o ovo precisava. Pois se elas nío estivessem tío distraí­das, se prestassem atençío í  grande vida que se faz dentro delas, atrapalhariam o ovo.

Comecei a falar da galinha e há muito já nío estou falando mais da galinha. Mas ainda estou falando do ovo.

E eis que nío entendo o ovo. Só entendo o ovo quebrado: quebro-o na frigideira. É deste modo indireto que me ofereço í  existência do ovo: meu sacrifí­cio é reduzir-me í  minha própria vida pessoal. Fiz do meu prazer e da minha dor o meu destino disfarçado. E ter apenas a própria vida é, para quem viu o ovo, um sacrifí­cio. Como aqueles que, no convento, varrem o chío e lavam a roupa, servindo sem a glória de funçío maior, meu trabalho é o de viver os meus prazeres e as minhas dores. É necessário que eu tenha a modéstia de viver.

Pego mais um ovo na cozinha, quebro-lhe a casca e forma. E a partir deste instante exato nunca existiu um ovo. É absolutamente indispensável que eu seja uma ocupada e uma distraí­da. Sou indispensavelmente um dos que renegam. Faço parte da maçonaria dos que viram uma vez o ovo e o renegam como forma de protegê-lo. Somos os que se abstêm de destruir, e nisso se consomem. Nós, agentes disfarçados e distribuí­dos pelas funções menos reveladoras, nós í s vezes nos reconhecemos. A um certo modo de olhar, há um jeito de dar a mío, nós nos reconhecemos e a isto chamamos de amor. E entío, nío é necessário o disfarce: embora nío se fale, também nío se mente, embora nío se diga a verdade, também nío é necessário dissimular. Amor é quando é concedido participar um pouco mais. Poucos querem o amor, porque o amor é a grande desilusío de tudo o mais. E poucos suportam perder todas as outras ilusões. Há os que voluntariam para o amor, pensando que o amor enriquecerá a vida pessoal. É o contrário: amor é finalmente a pobreza. Amor é nío ter. Inclusive amor é a desilusío do que se pensava que era amor. E nío é prêmio, por isso nío envaidece, amor nío é prêmio, é uma condiçío concedida exclusivamente para aqueles que, sem ele, corromperiam o ovo com a dor pessoal. Isso nío faz do amor uma exceçío honrosa; ele é exatamente concedido aos maus agentes, í queles que atrapalhariam tudo se nío lhes fosse permitido adivinhar vagamente.

A todos os agentes sío dadas muitas vantagens para que o ovo se faça. Nío é o caso de se ter inveja pois, inclusive algumas das condições, piores do que as dos outros, sío apenas as condições ideais para o ovo. Quanto ao prazer dos agentes, eles também o recebem sem orgulho. Austeramente vivem todos os prazeres: inclusive é o nosso sacrifí­cio para que o ovo se faça. Já nos foi imposta, inclusive uma natureza adequada a muito prazer. O que facilita. Pelo menos torna menos penoso o prazer.

Há casos de agentes que se suicidam: acham insuficientes as pouquí­ssimas instruções recebidas e se sentem sem apoio. Houve o caso do agente que revelou publicamente ser agente porque lhe foi intolerável nío ser compreendido, e ele nío suportava mais nío ter o respeito alheio: morreu atropelado quando saí­a de um restaurante. Houve um outro que nem precisou ser eliminado: ele próprio se consumiu lentamente na sua revolta, sua revolta veio quando ele descobriu que as duas ou três instruções recebidas nío incluí­am nenhuma explicaçío. Houve outro também eliminado, porque achava que -œa verdade deve ser corajosamente dita-, e começou em primeiro lugar a procurá-la; dele se disse que morreu em nome da verdade com sua inocência; sua aparente coragem era tolice, e era ingênuo o seu desejo de lealdade, ele compreendera que ser leal nío é coisa limpa, ser leal é ser desleal para com todo o resto. Esses casos extremos de morte nío sío por crueldade. É que há um trabalho, digamos cósmico, a ser feito, e os casos individuais infelizmente nío podem ser levados em consideraçío. Para os que sucumbem e se tornam individuais é que existem as instituições, a caridade, a compreensío que nío discrimina motivos, a nossa vida humana enfim.

Os ovos estalam na frigideira, e mergulhada no sonho preparo o café da manhí. Sem nenhum senso da realidade, grito pelas crianças que brotam de várias camas, arrastam cadeiras e comem, e o trabalho do dia amanhecido começa, gritado e rido e comido, clara e gema, alegria entre brigas, dia que é o nosso sal e nós somos o sal do dia, viver é extremamente tolerável, viver ocupa e distrai, viver faz rir.

E me faz sorrir no meu mistério. O meu mistério é que eu ser apenas um meio, e nío um fim, tem-me dado a mais maliciosa das liberdades: nío sou boba e aproveito. Inclusive, faço um mal aos outros que, francamente. O falso emprego que me deram para disfarçar a minha verdadeira funçío, pois aproveito o falso emprego e dele faço o meu verdadeiro; inclusive o dinheiro que me dío como diária para facilitar a minha vida de modo a que o ovo se faça, pois esse dinheiro eu tenho usado para outros fins, desvio de verba, ultimamente comprei ações na Brahma e estou rica. A isso tudo ainda chamo de ter a necessária modéstia de viver. E também o tempo que me deram, e que nos dío apenas para que no ócio honrado o ovo se faça, pois tenho usado esse tempo para prazeres ilí­citos e dores ilí­citas, inteiramente esquecida do ovo. Esta é a minha simplicidade.

Ou é isso mesmo que eles querem que me aconteça, exatamente para que o ovo se cumpra? É liberdade ou estou sendo mandada? Pois venho notando que tudo que é erro meu tem sido aproveitado. Minha revolta é que para eles eu nío sou nada, eu sou apenas preciosa: eles cuidam de mim segundo por segundo, com a mais absoluta falta de amor; sou apenas preciosa. Com o dinheiro que me dío, ando ultimamente bebendo. Abuso de confiança? Mas é que ninguém sabe como se sente por dentro aquele cujo emprego consiste em fingir que está traindo, e que termina acreditando na própria traiçío. Cujo emprego consiste em diariamente esquecer. Aquele de quem é exigida a aparente desonra. Nem meu espelho reflete mais um rosto que seja meu. Ou sou um agente, ou é a traiçío mesmo.

Mas durmo o sono dos justos por saber que minha vida fútil nío atrapalha a marcha do grande tempo. Pelo contrário: parece que é exigido de mim que eu seja extremamente fútil, é exigido de mim inclusive que eu durma como justo. Eles me querem preocupada e distraí­da, e nío lhes importa como. Pois, com minha atençío errada e minha tolice grave, eu poderia atrapalhar o que se está fazendo através de mim. É que eu própria, eu propriamente dita, só tenho mesmo servido para atrapalhar. O que me revela que talvez eu seja um agente é a idéia de que meu destino me ultrapassa: pelo menos isso eles tiveram mesmo que me deixar adivinhar, eu era daqueles que fariam mal o trabalho se ao menos nío adivinhassem um pouco; fizeram-me esquecer o que me deixaram adivinhar, mas vagamente ficou-me a noçío de que meu destino me ultrapassa, e de que sou instrumento do trabalho deles. Mas de qualquer modo era só instrumento que eu poderia ser, pois o trabalho nío poderia ser mesmo meu. Já experimentei me estabelecer por conta própria e nío deu certo; ficou-me até hoje essa mío trêmula. Tivesse eu insistido um pouco mais e teria perdido para sempre a saúde. Desde entío, desde essa malograda experiência, procuro raciocinar desse modo: que já me foi dado muito, que eles já me concederam tudo o que pode ser concedido; e que os outros agentes, muito superiores a mim, também trabalharam apenas para o que nío sabiam. E com as mesmas pouquí­ssimas instruções. Já me foi dado muito; isto, por exemplo: uma vez ou outra, com o coraçío batendo pelo privilégio, eu pelo menos sei que nío estou reconhecendo! Com o coraçío batendo de emoçío, eu pelo menos nío compreendo! Com o coraçío batendo de confiança, eu pelo menos nío sei.

Mas e o ovo? Este é um dos subterfúgios deles: enquanto eu falava sobre o ovo, eu tinha esquecido do ovo. -œFalai, falai-, instruí­ram-me eles. E o ovo fica inteiramente protegido por tantas palavras. Falai muito, é uma das instruções, estou tío cansada.

Por devoçío ao ovo, eu o esqueci. Meu necessário esquecimento. Meu interesseiro esquecimento. Pois o ovo é um esquivo. Diante de minha adoraçío possessiva ele poderia retrair-se e nunca mais voltar. Mas se ele for esquecido. Se eu fizer o sacrifí­cio de esquecê-lo. Se o ovo for impossí­vel. Entío – livre, delicado, sem mensagem alguma para mim – talvez uma vez ainda ele se locomova do espaço até esta janela que desde sempre deixei aberta. E de madrugada baixe no nosso edifí­cio. Sereno até a cozinha. Iluminando-a de minha palidez.