Po(D)ema #120 - Saudade a dois - Mundo Podcast 

Po(D)ema #120 – Saudade a dois

9 fevereiro 2016 Por Mundo Podcast
Po(D)ema #120 – Saudade a dois
  • Texto: Saudade a dois
  • Autor: Fabrí­cio Carpinejar
  • Interpretaçío: Igor Guedes (@professorigor)
  • Música: Trilha da série Dexter
  • Duraçío: 2min49s

Saudade a dois - Fabrí­cio Carpinejar

Saudade a dois

A saudade tem prazo de validade.

Nío pode permanecer muito tempo guardada. Nío pode permanecer muito tempo nío sendo correspondida.

Depois de aberta e fora do conví­vio, assim como o leite, a saudade azeda. E nío há memória refrigerada para conservá-la.

Quando passa da hora, aquela falta ansiosa e comovente é capaz de se tornar ironia e sarcasmo.

O suspiro se transforma em ofensa – nos enxergaremos tolos e burros por confiar cegamente em alguém e esperar í  toa. Reclamaremos nossa idiotice por termos feito uma vigí­lia em vío, por termos esquecido de viver.

Já nío queremos que o outro volte, já desejamos que ele nunca mais apareça em nossa frente. Violentaremos as lembranças, fecharemos a reza.

A ternura de antes será trocada pela raiva de nío ser atendido. Mudaremos a personalidade de nossa conversa, de doce para ácida. Pois o segredo (a saudade é um segredo!) que nos alimentou durante meses nío fora respeitado.

Infelizmente, a saudade apodrece.

Quando deixamos de pedir a presença para cobrar a ausência. É sutil o movimento. Toda a atençío dedicada ao longo de um perí­odo começa a ser vista como desperdí­cio. Nío aconteceu retorno das juras, nem o estorno das expectativas.

Você mandou centenas de mensagens, renunciou saí­das com amigos e bares, teve uma vida discreta e fiel, só para honrar uma despedida, e percebeu que, no fim, sempre esteve sozinho na saudade.

Saudade é como o amor. Perece quando nío é a dois.

Aliás, quando a saudade nío é a dois, deixa de ser saudade para se descobrir solidío.

A saudade é o que guardamos do amor para o futuro. É o que deixamos para amar no futuro.

Nada dói tanto quanto um amor que nío vingou após os cuidados do plantio.

Nada dói tanto quanto a saudade que envelhece, uma saudade que definhou pela indiferença, que nío foi valorizada pela nossa companhia, que nío desembocou em festa.

Nada dói tanto quanto promessas feitas gerando ressentimento.

A saudade nío é eterna. Acaba quando percebemos que o amor era da boca para fora, que a urgência era interesse, que a necessidade era falsa.

A saudade é uma esperança de amor. Precisa ser consumida rapidamente, nío mais que três meses. Senío, nos consome e nos estraga.