Po(D)ema #129 – Delírio de Alice

9 setembro 2017 Por Mundo Podcast
Po(D)ema #129 – Delírio de Alice
  • Texto: Delírio de Alice
  • Autor: Kell Bonassoli
  • Interpretação: Kell Bonassoli (@eusouakell)
  • Música: Mogwai
  • Duração: 5min04s

Kell Bonassoli - Coração de Vidro

Delírio de Alice

As palavras cintilam ao redor dos meus olhos como pequeninas estrelas, faíscam pensamentos desconexos e ampliam-se em labirintos. Gato. Um breve lampejo de algo transforma-se em sorriso e em menos de um tic desvanece, tac, brilha novamente. Chá. Toco algumas estrelas com as pontas dos dedos e coloco-as bem próximas, quase formando um desenho, mas um sopro faz com que tudo rodopie novamente e então elas multiplicam, conectam, bifurcam. Fernando.

Corro atras da palavra mais brilhante, os passos flutuando e a nuvem morna protege minha pele, a escuridão é densa como milhares de cortinas de seda, afasto de mim com as mãos, o vento mistura tudo com areia e sal. Sozinha. Quero correr mais depressa, algumas faíscas explodem em borboletas multicoloridas, elas voam em minha direção de forma repentina e chocam-se de encontro ao meu rosto. Como?

Por alguns instantes desespero-me com as sensações simultâneas e a cegueira quase absoluta, pisco os olhos, esfrego o rosto com as mãos, azul, verde, rosa, laranja, vermelho, todas brilham e consomem minha mente ao mesmo tempo. Não consigo ver nada, não consigo entender o que sinto.

Coelhinho palpita em meu peito, o coração infla, estica a pele, dói, e me escapa do vestido. “Volte. Volte, coelhinho.” A nuvem morna desfaz-se em um redemoinho, a areia e o sal ferem meu corpo como vidro, quero gritar, mas a voz também me foi roubada, brotou de minha boca e voou para a escuridão.

Caio de joelhos, a gravidade manifesta-se abrupta e implacável, curvo-me involuntariamente. Eu gritaria de dor se ainda tivesse voz. As mãos escorregam e logo estou com o rosto próximo as ondas. Tic, espuma toca meu rosto, tac, sou açoitada pelo mar e sinto o sal queimar minha garganta.

Entrego-me e aceito o fim. Fecho os olhos, escuridão, tac, palavras são peixes, formam cardumes curiosos nadando entre minhas pernas, ensinando-me a nadar. Sob a água tudo é lento, sob a água não preciso falar, concentro-me em compreender meu movimento sob a água, raios de sol difusos iluminam todo o universo, algas dançam escondendo mais e mais vida, palavras.

Avisto novamente a estrela luminosa, não, o peixe de escamas fluorescentes, pés articulando-se no movimento rítmico de nadadeiras, as pernas e braços sincronizados em perseguição, deslizo para o fundo, estico o braço e sinto na ponta dos dedos. Queima como água viva e ainda assim ignoro os limites dos meus músculos e nado mais e mais rápido…

Tac, preciso respirar, pessoas não respiram sob a água, preciso subir. Água e mais água. O sol esta acima, uma sombra esta acima. Um navio? Percebo que vou sufocar novamente, preciso subir, preciso nadar. Quantos metros faltam? Como pude ficar aqui por tanto tempo? Quase conseguindo. Posso sentir que estou perto. Tic o peixe surge reluzente acima da minha cabeça :

“Alice, eu posso devolver o que lhe foi tomado, mas para isto você deve esquecer das regras humanas. Este não é o seu mundo. Pare de tentar respirar. Fosse este seu mundo, palavras que são estrelas, que são peixes por acaso falariam?”

“Creio que chorar dentro do mar também não faça sentido, criança.”

Tac, naufraga na areia da praia sobre pedaços de madeira, cabelo cheio de restos de algas e estrelas do mar. Vomito espuma e a dor do ar rasgando os pulmões torna tudo ainda mais difícil. A pele torna-se esticada e quebradiça, no horizonte o sol deita-se, submergindo no oceano. Caixotes e restos de incontáveis tempos estão espalhados pela costa.

Se este não é meu mundo então este lugar não é real, mas se não é real, como eu posso sentir tudo isso?

E como sair?