Po(D)ema #66 - Cartinha para alguém que passeia no céu | Mundo Podcast 

Po(D)ema #66 – Cartinha para alguém que (ainda) passeia no céu

22 outubro 2013 Por Mundo Podcast
Po(D)ema #66 – Cartinha para alguém que (ainda) passeia no céu
  • Texto: Cartinha para alguém que (ainda) passeia no céu
  • Autor: Felipe Peixoto Braga Netto
  • Interpretaçío: Lucas Conrado (@OLucasConrado) – Papo de Minero
  • Música: Welcome Chris – Andrea Guerra
  • Duraçío: 5min34s

Arte da vitrine: Rodrigo Sena

Cartinha para alguém que (ainda) passeia no céu - Felipe Peixoto Braga Netto

Cartinha para alguém que (ainda) passeia no céu

-œamar é um elo
entre o azul
e o amarelo-
PAULO LEMINSKY

Filha,

Você ainda nío nasceu, o que é uma pena, pois hoje ando com uma vontade danada de te dar uns beijinhos de pai. Você vai nascer pequena, presumo, bem bebê, e depois vai crescer, como costumam fazer as crianças. Se quiser nascer já grande, tudo bem, mas, cá entre nós, é besteira grossa. É melhor seguir a tradiçío; se nío, pode dar na vista que você é especial. É bom disfarçar

Contarei uma porçío de histórias. É verdade, até hoje nío aprendi nenhuma. Mas deixa comigo que aprendo. Tem que ser bonita. Pode ter fada, e até uns monstros malvados. Mas malvadeza tem limite; se nío, você fica sem dormir, pensando na maldade. E eu também.

Se você, de vez em quando, quiser pular da sua cama para a cama de seus pais, tudo bem. Desde que você, em retribuiçío, reserve um lugar na sua caminha para os seus pais, quando eles estiverem tristes. É espantoso, mas pais também ficam tristes. Aí­ quem vai ter que contar histórias vai ser você. Pode ir treinando-¦

Aproveita essas férias no céu, e traz coisas bonitas daí­. O mundo anda precisando. Nío vou dizer que tudo é feio, mas algumas coisas sío. Outras sío bonitas. O mundo é engraçado, filha. É um jardim para todos os gostos; tem de tudo. É preciso estar bem atento ao que plantamos, porque pode demorar, mas o resultado das nossas escolhas acaba aparecendo.

Mas nío quero dar conselhos. Conselhos sío coisas de pai, e eu, um pouco triste, admito que ainda nío sou. Já me disse que isso é questío de tempo.

– Felié, isso passa, isso passa-¦ Um dia, você vai ver, vai ser pai. Vai sim!

E vou me consolando porque é o jeito. Nunca fui pai, você deve estar sabendo. Por isso, paciência. Ser pai é mais difí­cil que ser filha. Deve ser complicadí­ssimo, embora muito bom (eu acho até que Deus nío inventou coisa melhor, mas é só opiniío).

Uma coisa boa de ser pai é levar os filhos para passear. Até já escolhi nosso lugar prediléto. Sim, sou um pai um pouco autoritário. Mas é uma dureza simpática, cheia de ternura, muito fácil de driblar. Que talvez só possa ser chamada assim até você chegar. Depois, nem autoritarismo será, tío seu será meu coraçío boboca.

Filha, o lugar mais bonito do mundo fica aqui pertinho de casa (é nosso lugar predileto!). É uma linda praça de bonito nome – Praça da Liberdade. Olha, filha, acho que nem o céu, onde você atualmente mora, topa disputa com essa praça. Deus, ao fazê-la, estava inspiradí­ssimo, assim como deve estar agora, trabalhando em projetar você. Filha, Deus, mesmo sem inspiraçío, faz coisas divinas. Quando capricha entío-¦

Como é a praça? Uma imensidío de verdes árvores, flores de nomes estranhos, e pássaros. Tantos! Deve ser uma delí­cia voar por ali-¦. Se você, ainda como anjo, quiser ir lá, com uns amigos anjinhos, tudo bem, nío vou ficar com raiva, só levemente enciumado. Porque, puxa, queria que a primeira vez na praça fosse comigo. Coisas de pai. Mas entenderei. Ser pai tem (deve ter) dessas coisas.

Já que você confia um pouco em mim (confia, nío confia?), deixa eu te falar: a praça é sublime! Você nío sabe o que é sublime? Sublime é uma coisa irmí de coisa ótima, mas ainda melhor. Quando, na vidinha de filha de Deus, topar com algo de um bom exagerado, você pode dizer que é sublime. Aliás, a praça é sublime o tempo todo. De manhí ou de noite. Até de tarde. Deve ser também de madrugada, mas isso eu só acho, nío afirmo, porque nunca fui lá por essas horas.

Ontem fui lá í  noitinha, no comecinho da noite, e havia uma lua que estava gentilmente em cima da praça. As luas sío muito gentis com as praças, mas acho que essa tem uns privilégios especiais. Deve ter. Porque as árvores, que sío bonitas em todo lugar, aqui exageram. Até as pessoas ficam mais bonitas aqui. Comigo, é verdade, a praça nío tem ajudado muito, mas ela é praça, nío é santo milagreiro.

Um segredinho: ontem comprei um presente. Sim, é seu. Um livrinho. Foi assim: saí­ da praça e fui í  livraria e lá topei com um livro lindí­ssimo, que disseram que era pra criança. Pensei um pouco e vi que nío tinha criança pra dar. Pensei melhor e percebi que tinha: você! Entío comprei. Chama-se o Fazedor de Amanhecer, e tem uns desenhos-¦

Filha, já sinto uma bruta falta de você. Queria já ter logo, mas as coisas nío sío assim. Mas me conforta saber que um dia – em breve – você virá. Olha, fico com olhos úmidos só de pensar. E virá-¦ Curiosa, cheia de si, com uma compreensío diferente e bela das coisas – e uns cabelos bem pretinhos e lisinhos, que me farío um pai quadrúpede, de tío reverente aos seus encantos.

Mando essa cartinha – que viajará, por nuvens e mares, até você – para dizer que uma parte desse mundo já é sua, uma parte pequena, de valia duvidosa, esse velho coraçío de futuro pai.