Po(D)ema #69 - Quase uma carta que nío escrevo - Mundo Podcast 

Po(D)ema #69 – Quase uma carta que nío escrevo

21 dezembro 2013 Por Mundo Podcast
Po(D)ema #69 – Quase uma carta que nío escrevo
  • Texto: Quase uma carta que nío escrevo
  • Autor: Sammy Vallo
  • Interpretaçío: Erika Figueira (@erikapes)
  • Música: Sucre’s Dilemma – Trilha da série Prison Break
  • Duraçío: 4min24s

Arte da vitrine: Rodrigo Sena

Erika Figueira - Quase uma carta que nío escrevo

Quase uma carta que nío escrevo

Eu nío sei mais do que sinto tanta falta. Daí­ acredito em outras vidas pra justificar essa saudade. Eu sei que o tempo está acabando e encantamento virou tristeza  porque a realidade dói porque eu prefiro assim. Sem companhia ou bom dias, e é bem assim que tem que ser… Estou me despedindo e nío sei se você nío entende ou se entende tío bem que se afasta. Sabiamente. É estranho, sabe. É bem estranho. Um nada inexistente. Ninguém nunca me viu dessa forma, ninguém nunca me leu assim, OU entío o fingimento convence. Eu acredito nisso. Eu prefiro a dor í  ilusío… Nío me permito mais, nío posso… Já foi o bastante. O duro é ser merda desprezí­vel. E que nío vai passar com a banda porque nunca passa essa merda.

Eu confundi tudo e no fim é só isso. E eu vou embora, me jogar no rio parado, sujo e fedorento e verde e lamacento e ficar lá. Até ficar verde também. Haha  Até ficar verde… Porque no fim eu nem sei mais do que sinto falta… Se é de você ou se é de mim.  As falsidades e as mentiras e as contradições dessa maldita vida… E eu sempre vou pedir desculpas porque nío sei estar aqui sem ter vivido realmente e pensando assim concluo que minha vida é a uma desgraça lamurienta.haha Lamuriosa.Lamúria rosa.

Tristeza desatino. Dor sem destino. Cutucando a ferida com caco de vidro, sangrando por dentro, vomitando ao contrário.. Oh!

E eu nío tenho muito a oferecer além das míos vazias, um corpo murcho,  uma saudade infinita, de quê e pra quê nennhum deus pode saber  e eles também nío se importam muito com a miséria humana, senío nío seriam deuses… Estou cansada demais e  o corpo pesa com tanta inutilidade, pesando os cabelos com a água da chuva do céu carregado pelo vento e depois vem o sol queima tudo.

O que dói é saber  que nío há mais nada que me impeça de fugir. O voo cego contra a parede. O chío nunca foi tío confortável, mais uma vez vamos í  fossa. De volta ao fosso, de volta í  fossa…

Entre os meus iguais, irmíos malditos das sombras enevoadas e eu lembro do seu cheiro bom e tudo volta a escorrer pelo rosto…Eu vou me afastando devagar, negando sentimentos, tudo que quero é nío sentir, anestesiar o corpo e a mente e dormir…Na amplitude das ausências e sentidos falhos encontro algo que chamo de paz, mas tem textura de sangue e sofrimento e lembra algo da dor, mas é mais calma, plácida, mortificada, apática no vazio da existência apodrecida.

Contando os dias de trás pra frente, querendo voltar onde nunca se foi, por medo, covardia, ansiedade…Por querer tantas míos e nío restar nenhuma entre os cabelos, nío restar nem cabelos, nío restar.

É um corpo apodrecendo sozinho no porta malas de um carro afundando na lama, no fundo da fossa, do poço cavado com os dedos sem unhas sangrando, com os dentes caindo e batendo na lataria enferrujada… Nío há muito a oferecer, nío há surpresas e é sempre a mesma música e o mesmo medo e nío há surpresas, definitivamente. E eu resto aqui de míos vazias. Sem nada a oferecer além delas. Sem saber o que nelas caberia se nío fosse o vazio da saudade de sabe-se-lá-o-quê.