Po(D)ema #83 - Sonhos de Robô - Mundo Podcast 

Po(D)ema #83 – Sonhos de Robô

7 junho 2014 Por Mundo Podcast
Po(D)ema #83 – Sonhos de Robô
  • Texto: Sonhos de Robô
  • Autor: Isaac Asimov
  • Interpretaçío:
  • Música: Pruit Igoe – Philip Glass
  • Duraçío: 5min47s

Arte da vitrine: Rodrigo Sena

Isaac Asimov - Sonhos de Robô

Isaac Asimov

Sonhos de Robô

– Elvex.

A cabeça do robô voltou-se suavemente na sua direçío.

– Sim, Dra. Calvin?

– Como sabe que esteve sonhando, Elvex?

– Acontece í  noite, quando está tudo escuro, Dra. Calvin – disse ele. – E de repente surge uma luz, embora eu nío consiga ver de onde ela vem. Passo a ver coisas que nío têm conexío com aquilo que concebo como a realidade. Ouço coisas. Tenho reações estranhas. Quando recorri a meu vocabulário para exprimir o que estava acontecendo, deparei com a palavra sonho. Estudei seu significado e cheguei finalmente í  conclusío de que estava sonhando.

– Com que freqí¼ência tem sonhado, Elvex?

– Todas as noites, Dra. Calvin, desde que comecei a existir.

– Por que só revelou isto hoje, Elvex?

– Foi somente hoje, Dra. Calvin, que fiquei convencido de que estava sonhando. Até entío imaginava que havia algum tipo de defeito em meus padrões positrônicos, mas nío conseguia descobrir nenhum. Finalmente, concluí­ que se tratava de um sonho.

– E o que acontece nos seus sonhos?

– É praticamente o mesmo sonho todas as vezes, doutora. Há pequenos detalhes diferentes, mas sempre me parece que estou no interior de um vasto panorama onde há robôs trabalhando.

– Robôs, Elvex? E seres humanos, também?

– Nío vejo nenhum ser humano no sonho, Dra. Calvin, pelo menos nío de iní­cio. Apenas robôs.

– E o que fazem esses robôs?

– Trabalham. Alguns trabalham em mineraçío nas profundezas da Terra, outros com calor e com radiações. Vejo alguns deles em fábricas, outros no fundo do oceano.

– Elvex tem apenas dez dias de idade, e pelo que sei jamais deixou a estaçío de testes. Como pode saber da vida dos demais robôs com tal riqueza de detalhes?

– Entío você viu todas essas coisas: lugares abissais, subterrneos, a superfí­cie… Imagino que tenha visto o espaço, também.

– Também vi robôs trabalhando no espaço – disse Elvex. – Foi o fato de ver tudo isto, com os detalhes mudando continuamente í  medida que eu mudava a direçío do meu olhar, que me convenceu de que o que eu via nío estava de acordo com a realidade, me levando em seguida í  conclusío de que eu estava sonhando.

– O que mais você viu, Elvex?

– Vi que todos os robôs estavam curvados de fadiga e de afliçío, que estavam todos cansados de tanta responsabilidade e de tantas preocupações; e desejei que eles pudessem repousar.

– Mas os robôs – disse a Dra. Calvin – nío estío curvados nem cansados. Eles nío precisam de repouso.

– Assim é na realidade, Dra. Calvin. Mas é do meu sonho que estou falando. No meu sonho parecia-me que os robôs deviam proteger sua própria existência.

– Está citando a Terceira Lei da Robótica?

– Sim, Dra. Calvin.

– Mas você a citou de forma incompleta. A Terceira Lei diz: Um robô deve proteger sua própria existência, na medida em que essa proteçío nío entre em conflito com a Primeira Lei e a Segunda Lei.

– Sim, Dra. Calvin. Assim é a Terceira Lei na realidade, mas no meu sonho a Lei se concluí­a na palavra existência. Nío havia qualquer mençío í  Primeira Lei ou í  Segunda Lei.

– No entanto ambas existem, Elvex. A Segunda Lei, que tem precedência sobre a Terceira, diz: Um robô deve obedecer í s ordens dos seres humanos, na medida em que essas ordens nío entrem em conflito com a Primeira Lei. Devido a isto, os robôs obedecem ordens. Eles executam as tarefas que você os viu executar, e fazem isso com presteza e sem sofrimento algum. Eles nío estío fatigados nem necessitados de repouso.

– Sei que é assim na realidade, Dra. Calvin. Mas o que descrevi foi o meu sonho.

– E a Primeira Lei, Elvex, a mais importante de todas, é: Um robô nío pode fazer mal a um ser humano, nem, por omissío, permitir que um ser humano sofra qualquer mal.

– Sim, Dra. Calvin. Na vida real. No meu sonho, entretanto, era como se nío existissem a Primeira e a Segunda Leis, mas apenas a Terceira, e a Terceira Lei dizia: Um robô deve proteger sua própria existência. Era apenas isto o texto da Lei.

– No seu sonho, Elvex?

– No meu sonho.

– Fale-me sobre a continuaçío de seu sonho. Você disse que, de iní­cio, nío apareciam seres humanos nele. Apareciam depois?

– Sim, Dra. Calvin. Pareceu-me que, num dado momento, aparecia um homem.

– Um homem? Nío um robô?

– Sim, Dra. Calvin. E o homem dizia: Libertem meu povo!

– O homem dizia isto?

– Sim, Dra. Calvin.

– E quando dizia libertem meu povo, com as palavras meu povo ele se referia aos robôs?

– Sim, Dra. Calvin. Era assim no meu sonho.

– E no sonho você reconhecia esse homem?

– Sim, Dra. Calvin. Sei quem era esse homem.

– Quem era, entío? E Elvex disse:

– Eu era esse homem.

Susan Calvin ergueu no mesmo instante a pistola eletrônica, e disparou. Elvex deixou de existir.