Po(D)ema #89 - A Máscara da Dor - Mundo Podcast 

Po(D)ema #89 – A Máscara da Dor

11 agosto 2014 Por Mundo Podcast
Po(D)ema #89 – A Máscara da Dor
  • Texto: A Máscara da Dor
  • Autor: Erika Figueira
  • Interpretaçío: Erika Figueira (@erikapes)
  • Música: The Dust Brothers – Chemical Burn
  • Duraçío: 3min19s

Arte da vitrine: Rodrigo Sena

Erika Figueira - A Máscara da Dor

Este Po(D)ema faz parte de uma série. Parte 4/24.

A Máscara da Dor

Ela deu o seu jeito de navegar pelos rios de minhas artérias e levantando uma bandeira negra, a Dor foi se declarando minha comandante por seus meios sórdidos, ilustrando um entre os milhões de quadros de imagens que capturo ou liberto por segundo.

É, ela me condenou í  solidío através da boca de poucas pessoas.

Ela me venceu multiplicando o verbo imperativo como se ele fosse um ví­rus, se instalou nas minhas ví­sceras até ter o poder de transformar a minha imagem em algo que por anos, gritei insistentemente nío passar de ilusío.

Unhas compridas, facas, adagas, solventes ou ácidos nío removeram a máscara estranha que foi lapidada em meu rosto cansado de decepçío.

Encolhida em meu canto senti histórias parasitas se instalando na minha memória durante cada noite em total escuridío.

Ela montou em mim o que jamais fui, reformulando os fatos reais, fazendo minhas catástrofes cotidianas parecerem penitência merecida ou mentira contada por uma grande bandida sem noçío.

Ela conseguiu me derrubar, me deixar com a cara em um chío que era tío seco, que nada dele brotava. Chovi tantas vezes mas água salgada nío serve pra regar uma semente que dirá pra construir uma plantaçío.

Ela foi abrindo pequenos espaços pra desbravar minha paz, até que em um dia sangrento ela entrou no meu peito, através estreitos espaços ela se instalou em cada uma das fibras do meu coraçío.

Entío ela colocou na minha boca suporte pra rédeas, nas costas celas e arreios, antolhos pra diminuir meu campo de visío.

A dor nío é inteligente. Privando meus sentidos, tentando me fazer parecer uma megera através das mentiras de um pretenso prí­ncipe ela matou tudo que eu tinha de princesa, a dor esqueceu de amarrar minha mío.

Arranco agora essa máscara maldita, através de letras moldadas por meus dedos, eu mato a Dor com o ser que ela mesma alimentou quando negou água í  minha solidío.

Tentando me transformar ela obteve sucesso, só nío contava com a possibilidade dessa fera me poupar mais que os homens, e preservando a minha pele ela se alojou em outra instalaçío.

Nío adianta Dor, essa fera me defende e tomou posse dos castelos que construí­ pra ela, que se transmutou em minha salvadora imaginaçío.