Po(D)ema #25 – Marina

6 fevereiro 2013 Por Mundo Podcast
Po(D)ema #25 – Marina
  • Texto: introdução de Marina
  • Autor: Carlos Ruiz Zafón
  • Interpretação: Kell Bonassoli (@kellbonassoli)
  • Músicas:
    • Opening – Trilha da série Dexter
    • Father Joe – Trilha da série Arquivo X
  • Duração: 3min43s
  • Feed do Po(D)ema: http://mundopodcast.com.br/podema/feed/

Marina - Carlos Ruiz Zafón

Marina

Marina me disse um dia que a gente só se lembra do que nunca aconteceu. Ainda ia se passar uma eternidade antes que eu pudesse compreender essas palavras. Mas é melhor começar do início, que nesse caso é o final.

Em maio de 1980, desapareci do mundo por uma semana. No espaço de sete dias e sete noites, ninguém soube do meu paradeiro. Amigos, colegas, professores e até a polícia saíram em busca do fugitivo que alguns já acreditavam morto ou perdido por ruas mal-afamadas, mergulhado em alguma crise de amnésia.

Uma semana depois, um policial à paisana teve a impressão de conhecer aquele garoto; a descrição batia. O suspeito vagava pela estação de Francia como uma alma penada numa catedral de ferro e névoa. O policial me abordou com um ar de romance de terror. Perguntou se meu nome era Oscar Drai e se era o rapaz que havia sumido sem deixar rastros do internato onde estudava. Fiz que sim, sem abrir a boca. Lembro-me do reflexo da abóbada da estação nas lentes de seus óculos.

Sentamos num banco da plataforma. Calmamente, o agente acendeu um cigarro. Deixou queimar sem colocá-lo nos lábios. Disse que tinha um monte de gente esperando para me fazer um monte de perguntas, para as quais era bom que tivesse boas respostas. Concordei de novo. Fitou-me nos olhos, estudando-me. “Às vezes, contar a verdade não é uma boa ideia  Óscar”, disse. Estendeu algumas moedas e pediu que eu ligasse para meu tutor no internato. Foi o que fiz. O policial esperou que eu terminasse a ligação. Em seguida, me deu dinheiro para um táxi e me desejou sorte. Perguntei como sabia que eu não ia desaparecer de novo. Ele me olhou longamente. “Só as pessoas que têm algum lugar para ir podem desaparecer”, respondeu, sem explicações. Foi comigo até a rua e, lá chegando, despediu-se sem perguntar onde eu tinha estado. Vi quando se afastou pelo Paseo Colón. A fumaça de seu cigarro intacto o seguia como um cão fiel.

Naquele dia, nos céus de Barcelona, o fantasma de Gaudí esculpia nuvens impossíveis sobre um azul que dissolvia o olhar. Peguei um táxi até o internato, onde achei que haveria um pelotão de fuzilamento à minha espera.

Por quatro semanas, professores e psicólogos escolares me martelaram para que eu revelasse meu segredo. Menti, oferecendo a cada um exatamente o que queria ouvir ou podia aceitar. Com o tempo, todos fizeram um esforço para fingir que tinham esquecido o episódio. E eu segui o exemplo. Nunca contei a ninguém a verdade sobre o que tinha acontecido.

Na época, não sabia que, cedo ou tarde, o oceano do tempo nos devolve as lembranças que enterramos nele. Quinze anos depois, a memória daquele dia voltou para mim. Vi aquele menino vagando entre as brumas da estação de Francia e o nome de Marina se acendeu de novo como uma ferida aberta.

Todos temos um segredo trancado a sete chaves no sótão da alma. Este é o meu.