PoDema #28 - Poema em Linha Reta | Mundo Podcast 

Po(D)ema #28 – Poema em Linha Reta

13 fevereiro 2013 Por Mundo Podcast
Po(D)ema #28 – Poema em Linha Reta
  • Música: In the house – Trilha do filme 28 Dias
  • Duraçío: 3min00s

Fernando Pessoa

Poema em Linha Reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes nío tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridí­culo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando nío tenho calado, tenho sido mais ridí­culo ainda;
Eu, que tenho sido cômico í s criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridí­culas,
Eu verifico que nío tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um ato ridí­culo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senío prí­ncipe – todos eles prí­ncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse nío um pecado, mas uma infmia;
Que contasse, nío uma violência, mas uma cobardia!
Nío, sío todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
í“ prí­ncipes, meus irmíos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Entío sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderío as mulheres nío os terem amado,
Podem ter sido traí­dos – mas ridí­culos nunca!
E eu, que tenho sido ridí­culo sem ter sido traí­do,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.