Po(D)ema #36 - Bárbaros - Mundo Podcast 

Po(D)ema #36 – Bárbaros

1 abril 2013 Por Mundo Podcast
Po(D)ema #36 – Bárbaros
  • Texto: Bárbaros
  • Autor: Luis Fernando Verí­ssimo
  • Interpretaçío: Victor Snaga (@OrcSnaga), Giovani Melo (VidaBeta) e Thiago Miro (@ThiagoMiro)
  • Música: Tí­tulo e Autor desconhecidos
  • Duraçío: 5min47s

Arte da vitrine: Rodrigo Sena

Bárbaros - Luis Fernando Verí­ssimo

Bárbaros

As civilizações costumam ter problemas com seus limites. Sempre há uma questío na fronteira, uma civilizaçío diferente e portanto perigosa, ou um bárbaro sujo. Sempre há um bárbaro do outro lado, um autêntico marginal. Sempre há um marginal. Contam que o Papa Leo, para salvar Roma, concordou em ir ao acampamento de ítila, o rei dos Hunos, o Flagelo de Deus, o sujo, e pedir clemência. Pois os marginais nem sempre respeitam as margens e esse sujo rompera os limites do santo império romano e ameaçava um dos seus dois corações. Apesar da idade e do cansaço com a longa viagem o Santo Padre concentra toda a sua santidade num pedido a Deus para que o levite, a fim de que ele possa vencer a faixa de lama e esterco que separa sua liteira da boca da tenda de couro sem sacrificar sua dignidade, ou pelo menos suas sapatilhas. Mas Deus nío o ouve e o Papa desliza para dentro da tenda onde ítila, que rói o que parece ser um fêmur humano, o recebe com uma salva de gases.
– ítila-¦
– Eu prefiro Flagelo.
– Flagelo, este é um encontro histórico. Você sabe o que é a História?
– Sei. Um monte de estrume. O que sobra da experiência depois que nós a digerimos. Lixo.
– Gosto do seu latim.
O huno mostra o fêmur seboso que acabou de limpar com os dentes.
– Preparei-me para o nosso encontro comendo um dos seus escolásticos. Ruct!
– O que foi isso?
– Um arroto. Estranho nío ter saí­do em latim. Mas, nas suas erupções, todos os homens falam a mesma lí­ngua. As conferências de paz deviam ser entre os mais mal-educados de cada naçío. Talvez seja por isso que nunca dío certo: sempre mandam os diplomatas. Mas você falava da História.
– Este encontro ficará nos anais da nossa História.
– Os hunos nío têm anais. Nío têm nem um alfabeto. Nossa História é o que contam os nossos velhos, e cada um mente mais do que o outro, para disfarçar o esquecimento. Entre os hunos, só os cavalos sabem escrever. Nossa História está nos seus rastros, no que eles deixam para trás. Lixo. Esqueletos, ruí­nas, mulheres estupradas e gado carneado. Isso quando nío estupramos o gado e carneamos as mulheres. Este seu perfume-¦
– Extrato das glicí­nias de Roma.
– Ah, Roma.
– Você já a viu?
– De longe. Suspensa no ar. Uma miragem.
– A Rainha das Colinas-¦
– A Eterna-¦
– Toda a História do mundo numa cidade só. Todas as cidades numa cidade só-¦
– Breve a pilharemos. Com a devida reverência.
– Você nío pode falar sério! Por trás desse exterior rude e dessas peles nodosas tem que haver um homem bom e razoável, com sentimentos nobres e um coraçío altivo.
– Um romano, você quer dizer. Sinto decepcioná-lo, Vossa Redolência, mas nío há. Pelo menos nío havia, da última vez que tomei banho.
– Roma nío é um lugar. Roma é uma idéia, um parmetro, um sonho, um triunfo do espí­rito. Roma é a memória e o futuro da humanidade!
– Prometemos só roubar o que tiver valor material. A literatura fica.
– ítila-¦
– Flagelo.
– Flagelo, poupe Roma. Me ofereço em seu lugar. Fique comigo e deixe Roma!
– Obrigado, eu já comi. E Vossa Fragrncia me surpreende, fazendo apelos í  consciência de um bárbaro. Eu nío tenho consciência. Eu sou tudo que Roma nío é. Se Roma é uma conquista da razío, foi essa inconsciência que ela conquistou.
E ítila bate no próprio peito, fazendo saltar outro arroto.
– Me atribuir uma consciência, Vossa Untuosidade – continua ítila – é diminuir a glória de Roma. Roma só é grande em contraste com seus inferiores. A nío ser-¦
E ítila cutuca o Papa com a ponta do fêmur, convidando-o para uma cumplicidade de sujos.
– A nío ser que vocês reconheçam que nío sío muito diferentes de nós. Hein? Hein? Por trás desse exterior bem lavado e desses panos bordados tem que haver um ítila adormecido. Vocês, apesar do extrato de glicí­nias, também nío sío flor que se cheire. Admita isso e eu admito ter uma consciência. Troco uma boa consciência por uma má.
– Nío negamos nossa História.
– Negam, negam. Seus anais mentem mais do que os nossos velhos. Vocês civilizaram meio mundo a patadas, como nós. Só que nós nío chamamos de civilizaçío. Chamamos pelo seu nome exato. Talvez seja a vantagem de nío ter uma escrita-¦
– Nos regeneremos! Hoje somos um império cristío.
– Isso depois de passar trezentos anos perseguindo os cristíos e atirando-os aos leões. Sempre suspeitei que os leões se enojaram primeiro.
– Está bem! Reconheço a nossa má consciência. Agora reconheça a sua boa.
– Feito!
– O quê?
– Concordo
– Você poupará Roma?
– Claro que nío.
– Mas-¦
– Vossa Ungí¼ência, vocês levaram trezentos anos para se converter e querem que eu me converta em três minutos? Dêem-nos tempo. Ainda temos uns bons cem anos de pilhagem pela frente até termos o bastante para nos tornarmos civilizados, talvez até cristíos.
– Seu, seu-¦
– Pode dizer. Bárbaro. Tenho a pele grossa, sem falar nos cascões de sujeira. Ruct! Epa. O seu gramático nío me fez bem. Volte para Roma e diga que eu sou pior do que ela pensa, mais sujo, o que só aumentará sua virtude. E que ela nío se preocupe: sempre haverá um bárbaro rondando as suas fronteiras para sua maior glória e indignaçío. Sempre há.

Está texto está no livro O suicida e O computador.