Po(D)ema #39 - Exército de Martelos - Mundo Podcast 

Po(D)ema #39 – Exército de Martelos

15 abril 2013 Por Mundo Podcast
Po(D)ema #39 – Exército de Martelos
  • Texto: Exército de Martelos (Texto da série -œFragmentos daqui e Dali-)
  • Autor: Erika Figueira
  • Interpretaçío: Erika Figueira (@erikapes) – Sexo & Tintas
  • Músicas:
    • Batery Park – Trilha do jogo Crysis
    • Intersection – Trilha do jogo Crysis
  • Duraçío: 4min44s

Arte da vitrine: Rodrigo Sena

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Po(D)ema #39 - Exército de Martelos - Erika Pessanha

Exército de Martelos

Sinto que se nío aparecer uma mío, eu nío saio daqui dessa construçío com ares de muro de Berlim-¦enquanto aguardo, ouço de longe uma marcha se aproximando, e esse é o único som das últimas horas, seria apavorante pra qualquer um, nío pra mim, que acostumei í s trincheiras da morte.

Eles estío vindo do lado em que se encontra a neblina que preciso atravessar, estou segura que nío sío inimigos pois todos esses residem dentro de mim. Entío, o que pra muitos é medo, pra mim só pode ser esperança.

Tudo que restou, e que ainda pode ser perdido, pouco me importa-¦pouco importa mesmo, entío aguardo ainda presa no arame do muro, a chegada desse batalhío, fechando meus olhos-¦deixando o barulho dos passos que se aproximam, se fundirem com o som que resta em batidas do meu coraçío-¦elas nío provam que estou viva, provam que meu exército orgnico teima em sobreviver, apesar de minha alma quase desfalecida.

Pronto-¦estío chegando, sío martelos andantes que nío sei onde já vi, e vêm em minha direçío. Eles certamente nío tem alma de homens-¦ isso faz deles um exército mais piedoso.

Nío sei se eles se aproximam pra derrubar o muro, ou a mim, entío agarro minha pena de escrever, finco a seringa em meu ventre pra que nada tome de mim, a única matéria que preciso, a tinta vermelha que me permite registrar a dor.

Os soldados entío martelam o muro, esfacelo entre os escombros-¦sou o escudo de ferro na frente das minhas letras qual fossem filhos, quero que apenas elas fiquem, quando eu partir desta trincheira.

Entío meus versos escritos se libertam do corpo do muro, meus ossos criam fissuras, os textos registrados na matéria derrubada, libertam a alma da minha poesia, enquanto a minha-¦acha sensato e menos doloroso descrer na eternidade.

Os martelos também somem, estou de pé, olho pra minha virilha, e curiosamente o sangue sobe pelas minhas pernas, entra na minha ferida e fecha as portas da minha pele-¦devo ter medo da fuga pra dentro de mim?

Poeira, neblina, luzes coloridas, misturas, demolições do bem e do mal.De longe uma mío vem se aproximando, aproximando-¦para em minha frente, delas saem formigas-¦ladeando esse sí­mbolo indecifrável, estío Buí±uel e Dali.

Eles chegam e suas roupas transmutam como vestes de santos, heróis e prí­ncipes salvadores-¦como conheço esse desconhecido-¦confio neles mais do que no real, me sento sobre a mío, espero a compreensío dos meus próximos passos neblina í  dentro.

Surge uma fumaça colorida, como os gases do Vesúvio: o que parece ser beleza, nío passa de um magma fervente, que ao invés de descer montanha abaixo, sobe-¦cristaliza a imagem das tais borboletas, das aves taciturnas-¦do espelho que se estilhaça-¦vejo o rosto dos meus filhos, sorrindo em meio a tais destroços

Apesar de ter a certeza de que por mais intenso que seja o sofrimento ele pode ser pior, isso me dá uma vantagem: mortos (como eu) nada têm a perder-¦