Po(D)ema #45 - A íšltima Resposta, de Isaac Asimov | Mundo Podcast 

Po(D)ema #45 – A íšltima Resposta

14 maio 2013 Por Mundo Podcast
Po(D)ema #45 – A íšltima Resposta
  • Trilha sonora:
    • Blind Pick – Trilha do jogo League of Legends
    • Shadowzone – Trilha do jogo Crysis
    • Contamination – Trilha do jogo Crysis
    • Dystopian Nightmares – Trilha do jogo Crysis
    • Sneak and shot – Trilha do jogo Crysis
    • Eye of the storm – Trilha do jogo Crysis
    • Battery park – Trilha do jogo Crysis
    • Close encounter – Trilha do jogo Crysis
    • The prodigal son brings death – Trilha do filme Blade Runner
  • Duraçío: 16min50s

Arte da vitrine: Rodrigo Sena

Po(D)ema #45 - A íšltima Resposta - Isaac Asimov

A íšltima Resposta

Murray Templeton tinha 45 anos de idade; estava na plenitude de sua vida e com todas as partes do seu corpo funcionando com perfeiçío… exceto alguns trechos vitais de suas artérias coronárias. Isso no entanto, foi o suficiente. A dor veio repentinamente, chegou a um ponto insuportável e, aos poucos, foi diminuindo. Ele podia sentir a respiraçío parando. Uma deliciosa sensaçío de paz o inundou.

Nío há nada mais agradável do que a ausência de dor – imediatamente depois da dor. Ele sentiu uma alegria vertiginosa, como se tivesse levitado e estivesse pairando no ar.

Abriu os olhos e percebeu, com uma discreta alegria, que os outros ainda estavam agitados. Estava no laboratório quando a dor o abateu sem nenhum aviso; ao cambalear ouviu os outros gritando surpresos. Depois tudo deu lugar a uma agonia avassaladora.

Agora que a dor tinha passado os outros ainda estavam inquietos, ansiosos e reunidos em torno do seu corpo caí­do… Repentinamente, ele percebeu que estava olhando a cena, lá do alto. Seu corpo estava lá embaixo, estirado no chío, com o rosto contorcido. Ele estava aqui em cima, observando em paz.

Pensou: milagre dos milagres! As besteiras sobre a vida eterna estavam certas.

Apesar de ser uma maneira humilhante para um fí­sico ateu morrer, ele apenas sentiu uma agradável surpresa, nío houve nenhuma alteraçío na sensaçío de paz em que tinha mergulhado.

Ele pensou: devia haver algum anjo – ou uma coisa no gênero – vindo me receber.

A cena terrestre estava se desvanecendo. Sua consciência foi invadida pela escuridío e de um ponto distante, como um último relance de visío, apareceu uma figura iluminada, com forma vagamente humana, irradiando calor.

Murray pensou: estío brincando comigo. Estou indo para o céu.

Assim que ele pensou nisso, a luz se apagou, mas o calor continuou. A sensaçío de paz nío diminuiu, apesar de, em todo o Universo, restarem apenas ele… e a Voz.

– Faço isso com muita freqí¼ência – disse a Voz, mas ainda assim me emociono a cada sucesso.
Murray pensou em dizer algo, mas nío sabia se possuí­a uma boca, uma lí­ngua, ou cordas vocais. No entanto, tentou articular um som. Sem a menor pretensío, tentou sussurrar palavras ou soprá-las ou colocá- las para fora por intermédio da contraçío de… alguma coisa.
E elas foram pronunciadas. Ele ouviu sua própria voz, facilmente identificável, e suas próprias palavras, infinitamente claras.
– Isso é o céu? – disse ele.
– Esse lugar nío é como o lugar que você imagina – disse a Voz.
Murray ficou atrapalhado, mas tinha que fazer a pergunta.
– Desculpe se pareço um pouco imbecil, mas você é Deus? Sem mudar a entonaçío ou de algum modo pretendendo soar com perfeiçío, a Voz conseguiu ser engraçada.
– É estranho que sempre me perguntem isso, claro que das maneiras mais diferentes possí­veis. Você nío compreenderia a resposta que posso lhe dar. Eu sou… isso é tudo o que posso dizer de significativo, e você pode me rotular com palavra ou conceito que lhe agradar.
– E o que eu sou? – disse Murray. – Uma alma? Ou eu ainda sou apenas uma existência personificada? – Tentou nío parecer sarcástico, mas nío conseguiu. Rapidamente pensou em acrescentar “Vossa Alteza” ou “Santidade” ou algo que atenuasse o sarcasmo, e nío pôde dizer isso, mesmo que, pela primeira vez em sua existência, admitisse a possibilidade de ser punido com o inferno ou coisa semelhante por causa de sua insolência – ou pecado? A Voz nío parecia ofendida.
– É fácil você explicar-se… até mesmo para você. Você pode se chamar de alma, se isso lhe agrada, mas você, na verdade, é uma conexío de forças eletromagnéticas, arrumadas de modo a que todas as interconexões e inter-relações sejam exatamente iguais í s do seu cérebro em sua existência universal… até nos menores detalhes. Além disso, você tem capacidade para pensar, ter lembranças e uma personalidade própria. Você vai achar que ainda é você mesmo.
Murray ficou perplexo.
– Você quer dizer que a essência do meu cérebro é permanente?
– Nío, de jeito nenhum. Nada seu é permanente, a nío ser o que eu decidir que seja. Eu criei a conexío. Eu a construí­ enquanto você desfrutava sua existência fí­sica e ajustei-a para o momento em que sua vida terrestre chegasse ao fim. – A Voz parecia visivelmente satisfeita consigo mesma e, depois de uma rápida pausa, acrescentou:
– Uma construçío complexa, mas muito precisa. É claro que poderia fazer isso com todos os seres humanos do seu mundo, mas prefiro nío fazer. Sinto prazer em escolher.

– Você escolhe muito poucos, entío.
– Muito poucos.
– E o que acontece com o resto?
– Caem no esquecimento. Ah, é verdade, você acredita no Inferno.
Murray teria corado se ainda tivesse um rosto.
– Nío penso assim. É só uma maneira de falar. Até agora, nunca tinha pensado que fosse virtuoso ao ponto de chamar a sua atençío e me tornar um Eleito.
– Virtuoso? Ah, sei o que quer dizer. É um incômodo ter que me forçar a pensar no mesmo ní­vel que o seu. Nío, eu o escolhi por causa de sua capacidade de pensar, assim como escolho outros, em quatrilhões, em todas as espécies inteligentes do Universo.
Murray se sentiu subitamente curioso, um hábito que adquirira quando era vivo.
– Você escolhe as pessoas sozinho ou há outros iguais a Você? Por um instante Murray pensou que estava tirando a paciência da Voz, mas, quando Ela surgiu, continuava imperturbável.
– Se há outros ou nío isso é irrelevante para você. O Universo é meu, só meu.
É uma invençío minha, uma construçío minha, tudo foi planejado só para satisfazer meus propósitos.
– E mesmo com quatrilhões de conexões criadas por você, você perde tempo comigo? Sou tío importante assim?
– Você nío tem a menor importncia – disse a Voz. – com os outros eu ajo de um modo que, na sua maneira de ver, pareceria igual.
– Você é único?
– Você está tentando me colocar numa armadilha sem consistência – disse a Voz, num tom novamente divertido. – Se você fosse uma ameba que só pudesse considerar a individualidade em conexío com pequenas células, e se fosse perguntar a um cachalote com 30 quatrilhões de células se ele é um ou muitos, de que forma o cachalote poderia responder para que isso fosse compreensí­vel para a ameba?
– Pensarei nisso – disse Murray secamente. – Talvez um dia venha a entender.
– Exatamente. É para isso que está aqui. Para pensar.
– Com que finalidade? Parece que você já sabe tudo.
– Mesmo que eu soubesse tudo nío poderia saber que sei tudo.
– Isso me lembra a filosofia ocidental… uma coisa que parece profunda exatamente porque nío tem significado.
– Você promete – disse a Voz. – Você responde ao meu paradoxo com um paradoxo… Só que o que eu digo nío é um paradoxo. Pense. Eu existo eternamente, mas o que isso quer dizer? Isso quer dizer que nío posso me lembrar de quando comecei a existir. Se pudesse, nío existiria eternamente. Se nío posso lembrar de como comecei a existir, entío pelo menos há uma coisa – a natureza das minhas origens – que nío sei.

Assim, mesmo que eu saiba o que é infinito, também é verdade que o que há para conhecer também é infinito, e como posso ter certeza de que os dois infinitos sío iguais? A infinitude do potencial de conhecimento pode ser infinitamente maior do que a infinitude do meu conhecimento atual. Aqui está um simples exemplo: se eu conhecesse a totalidade dos números inteiros pares eu teria um número infinito de informações e, mesmo assim, ainda nío conheceria um único dos números inteiros í­mpares.

– Mas os números inteiros í­mpares podem ser derivados. Se você dividir todos os números inteiros pares dessa série infinita por dois, você vai obter outra série infinita que contém dentro de si a série infinita dos números í­mpares.
– Você tem a noçío – disse a Voz. – Estou satisfeito. Sua tarefa será encontrar outros caminhos como esse, por mais difí­ceis que sejam, do conhecimento para o ainda-nío-conhecido.

Você ainda tem memória. Você se lembrará de todos os dados que já tenha pesquisado ou aprendido, que já tenha deduzido ou que venha a deduzir desses dados. Se necessário, terá permissío para aprender os novos dados que considerar relevantes para resolver os problemas que você mesmo estabelecer.

– Você nío poderia fazer isso sozinho?
– Posso – respondeu a Voz. – Mas assim é mais interessante. Construí­ o Universo para ter mais fatos com que lidar. Inseri o princí­pio da incerteza, a entropia e outros fatores casuais para fazer com que o todo nío seja tío monótono. Isso tem funcionado muito bem e tem me entretido ao longo de toda a minha existência.
– Depois, pensei em estruturas que dessem origem í  vida, e, em seguida, í  inteligência, e usei isso como uma forma de pesquisa coletiva, nío porque precise de ajuda, mas porque isso introduziria um novo fator casual. Cheguei í  conclusío de que nío podia prognosticar a próxima área de interesse a ser conquistada pelo conhecimento, de onde ela viria, de que forma seria obtida.
– Isso já aconteceu? – perguntou Murray.
– Certamente. Nío há um século em que nío apareça alguma coisa interessante em algum lugar.
– Algo que você poderia ter pensado sozinho, mas que até entío nío tinha feito.
– Sim.
– Você acha mesmo que há alguma coisa que eu possa fazer por você?
– No próximo século? Literalmente nío. No entanto, a longo prazo o seu sucesso é certo, desde que você se engaje para sempre.
– Poderei pensar eternamente? Para sempre?
– Sim.
– Para quê?
– Já lhe disse. Para adquirir novos conhecimentos.
– Mas, além disso, para que preciso descobrir novos conhecimentos?
– Foi o que você fez em sua vida terrestre. Qual o seu objetivo naquela época?
– Adquirir novos conhecimentos que só eu pudesse adquirir. Para ser admirado pelos meus companheiros. Para sentir a satisfaçío de concluir um trabalho, mesmo sabendo que tinha um tempo certo para alcançar o meu objetivo. Agora eu só poderia conquistar algo que, se você se esforçasse um pouco, poderia descobrir sozinho. Você nío pode me admirar. Você só quer se divertir. E nío há mérito ou satisfaçío em concluir um estudo quando se tem toda a eternidade para isso.
– Você nío acha que um pensamento e uma descoberta se justificam por si só? Você nío acha que isso é mais importante do que qualquer objetivo pessoal?
– Por um tempo finito, sim. Nío para toda a eternidade.
– Compreendo o seu problema. No entanto, você nío tem escolha.
– Você diz que estou aqui para pensar, mas nío pode me obrigar a fazer isso.
– Nío pretendo obrigá-lo diretamente. Nío precisarei disso. Já que a única coisa que pode fazer é pensar, você pensará. Você nío sabe como nío pensar.
– Entío, estabelecerei uma meta para mim. Inventarei um objetivo.
– Certamente, você pode fazer isso – disse a Voz, tolerante.
– Já encontrei um objetivo.
– Posso saber qual é?
– Você já sabe. Sei que estamos falando só por falar. Você ajustou minha conexío de um modo que acredite ouvi-lo e falarlhe, mas você transfere pensamentos para mim diretamente. E quando minha conexío muda com meus pensamentos, imediatamente você os adivinha, sem precisar da minha transmissío voluntária.
– Você está surpreendentemente certo – disse a Voz. – Estou satisfeito. Mas também me satisfaz ter você para me contar seus pensamentos voluntariamente.
– Entío, eu lhe contarei. O objetivo de minhas reflexões será descobrir uma forma para interromper a conexío que você criou para mim. Nío quero pensar apenas com o propósito de diverti-lo. Nío quero pensar para sempre só para diverti-lo. Nío quero existir para sempre só para diverti-lo. Todas as minhas reflexões se voltarío para acabar com essa conexío. Isso me divertia.
– Nío faço nenhuma objeçío – disse a Voz. – Até um pensamento concentrado no fim de sua própria existência pode, a despeito de você, levar a algo novo e atraente. E, é claro, se você for bem-sucedido na sua tentativa de suicí­dio, nío concluirá nada, pois imediatamente eu o reconstruiria e, de uma certa forma, tornaria seu método de suicí­dio impossí­vel. E se você achasse uma outra forma mais sutil para interromper a si mesmo, eu o reconstruiria com essa possibilidade eliminada, e por aí­ em diante. Poderia ser um jogo
interessante, mas, de um jeito ou de outro, você existirá eternamente. Esta é minha vontade.

Murray sentiu um tremor, mas as palavras saí­ram naturalmente.

– Estou no Inferno, afinal? Você afirmou que nío, mas se isso fosse o Inferno, você mentiria, como parte do jogo do Inferno.
– Nesse caso, tudo o que você precisa é que lhe garanta que nío está no Inferno? Entío, eu lhe garanto. Aqui nío há nem Céu nem Inferno. Somente eu mesmo.
– Leve em conta, entío, que meus pensamentos podem ser inúteis para você. Se nío posso ser-lhe útil em nada, nío lhe custará nada… me desmontar e parar de me incomodar.
– Como uma recompensa? Você quer o Nirvana como prêmio para o fracasso e quer me garantir que fracassará? Nío há nenhum acordo nisso. Você nío falhará. com toda a eternidade pela frente, você nío pode evitar de ter ao menos um pensamento interessante, mesmo que seja contra sua vontade.
– Entío criarei outro objetivo para mim. Nío tentarei me destruir. Minha meta será desmoralizá-lo. Pensarei em alguma coisa em que você nío apenas nunca tenha pensado, mas na qual jamais poderia pensar. Pensarei na última resposta, além da qual nío há mais nenhum conhecimento.
– Você nío compreende a natureza do infinito. Talvez haja coisas que ainda nío tenha me preocupado em saber. Mas nío há nada que eu nío possa saber.
– Você nío pode saber sobre sua origem – disse Murray, pensativo. – Você disse isso. Além do mais, você nío pode conhecer seu fim. Muito bem, entío. Esse será o meu objetivo e essa será a última resposta. Nío me destruirei. Eu destruirei você… Se você nío me destruir antes.
– Ah – disse a Voz. – Imaginei que você precisasse de mais tempo para chegar a esse ponto. Pensei que fosse demorar mais. Nío há ninguém, em toda a minha existência de pensamentos perfeitos e eternos, que nío tenha a ambiçío de me destruir. Mas isso é impossí­vel.
– Tenho toda a eternidade para pensar numa maneira de destruí­-lo.
– Entío tente pensar nisso – disse a Voz, serenamente.

Ela se foi. Mas Murray tinha seu objetivo e estava feliz.

E o que poderia alguma Entidade, consciente de sua existência querer… senío o fim? O que mais vinha a Voz procurando, através de incontáveis bilhões de anos? E por que outra razío a inteligência tinha sido criada, e certas espécies tinham sido protegidas e colocadas para trabalhar, a nío ser para ajudar numa grande procura? Murray pretendia que fosse ele e ele sozinho, o descobridor.

Cuidadosamente, com a excitaçío de quem agora tinha um objetivo, Murray começou a pensar.

Ele tinha tempo de sobra.