Po(D)ema #48 – Intermediária

2 junho 2013 Por Mundo Podcast
Po(D)ema #48 – Intermediária
  • Texto: Intermediária
  • Autor: Erika Figueira
  • Interpretação: Erika Figueira (@erikapes) – Sexo&Tintas
  • Música: Koyaanisqatsi – Pruitt Igoe
  • Duração: 3min44s

Arte da vitrine: Rodrigo Sena

Erika Figueira - Intermediária - Podema

Intermediária

Quero de volta a benção da ignorância, a que impedia o meu entendimento quando eu olhava pra trás, a que me poupava do medo de olhar pra frente, que me permitia sentir viva e me puxava sorrisos fáceis que não pertencem nem aos bichos nem aos pensantes.

Grito pra eu voltar a ser meu nada, minha estagnação…abram a minha jaula eu só quero conseguir descansar dentro de uma prisão…

Olho no espelho e vejo uma besta que não é mulher e nem é fera…instintos atrofiados, raciocínios depurados, desejos sufocados.

Sou a corda entre meus anjos e demônios, partindo dia a dia, um pequeno fio…a dor é tanta que não me importa pra onde eu vou, tudo que eu quero é ser apenas mais uma das partículas do universo e em determinado momento simplesmente dissolver ou sumir.

Colaborar? Aconselhar? Motivar como… não sei sequer mentir, quando vejo vidas chegando sinto a minha partir. Nada quero, não sei, não planejo alcançar.

Perdi algum tempo com crenças, rezei por alguns milagres, fiz oferenda pra alguns santos…fodam-se os acontecimentos, que ressuscite todo o mal que eu resguardei em forma de escudo pra eu me proteger, em forma de penas pro meu sono eterno, amortecer.

Meus filósofos me explicam que nada tem explicação, origem ou destino, meus palhaços me dão máscaras pra fingir alegria, meus mortos mais feridos, me acompanham noite e dia.

A mocinha sumiu…a princesa sequer existiu, só quem persiste em ficar são as rejeitadas de mim…A louca que me faz gargalhar, a puta que me ajuda a gozar, o macho que me ajuda a suportar o mundo em minhas costas.

A ninfa paira mas não pousa, a deusa planeja me ajudar mas não persiste, a psicologa de merda engole as dores e não sabe cuspir.

Mulheres delirantes, bacantes…desejo de retiro do elefante sem presas…Comer, dormir, trepar, não dormir, não saber o que aguardar. Falar, calar, falar, calar…escrever…

Escrever, escrever…é a única força que me ajuda a suportar viver. Bombas são armadas durante o dia, mas chega a noite e explodir letras estraçalha minhas mágoas. Quando termino me olho, o sangue sumiu, a lágrima rolou…salvo o arquivo junto com minha vida, fecho as janelas, abro as cortinas…passou…