Po(D)ema #51 – Don Facundo

23 junho 2013 Por Mundo Podcast
Po(D)ema #51 – Don Facundo
  • Trilha sonora:
    • Summer Overture – Clint Mansell
    • Full Tense – Clint Mansell
    • Ghosts – Clint Mansell
    • Ghosts of a future lost – Clint Mansell
  • Duração: 8min20s

Arte da vitrine: Rodrigo Sena

Po(D)ema #51 - Don Facundo - Luciano Pires

Don Facundo

O Don Facundo era um boneco de ventríloquo que nos sessenta e início dos setenta fazia a alegria da criançada na televisão. Eu me lembro bem que o boneco era espirituoso e falava com sotaque. Eu ficava fascinado cada vez que ele aparecia nos televisores em preto e branco, mas um dia foi diferente, apareceu o ventríloquo sozinho, numa entrevista, fazendo um apelo.

O Don Facundo fora roubado e o dono pedia a quem o roubara que devolvesse seu instrumento de trabalho. Assisti a cena do ventríloquo meio sem entender direito, o que alguém faria com um boneco roubado, hein? Será que o boneco falaria com outra pessoa além do seu dono? E se fosse outro ventríloquo o boneco não teria a mesma voz nem a mesma personalidade. O fato é que o ventríloquo apareceu depois com outro boneco mas que já não era mais o Don Facundo. E eu me arrisco a dizer que ele estava mais triste, não tinha mais a mesma cara nem fazia a mesma graça e o tal ventríloquo desapareceu.

O ladrão que levou o boneco levou também um pedaço da vida do ventríloquo. Tudo isso me vem à lembrança no dia dois de outubro de 2007 quando em plena marginal de pinheiros, em São Paulo e em meio a um engarrafamento, um motoqueiro parou ao meu lado, bateu na minha janela e mostrando um revólver agressivamente levou meu relógio, meu celular e o meu laptop. Eu fui assaltado no meio do trânsito com milhares de pessoas ao meu redor. O ladrão levou meus objetos, mas como aconteceu com aquele ventríloquo quarenta anos atrás ele levou mais do que objetos, levou uma parte de mim.

Tudo aconteceu em menos de um minuto no meio de muitos automóveis. Minha reação foi instintiva, eu apenas deixei as mãos a mostra, mantendo-me calmo, já que o ladrão parecia muito nervoso. Entreguei a ele cada objetivo que ele pedia. Vi, aliviado, o ladrão sair em meio ao carros. O relógio era baratinho, os celulares eu bloqueei, mas o laptop era o meu Don Facundo. Dentro dele, milhares de informações. Perdi com ele alguns projetos nos quais trabalhava e que ainda não haviam sido duplicados para outras máquinas. Mas… Alguma coisa a mais também foi roubada.

Dois dias após o assalto fiz a palestra de abertura do Congresso Internacional para a “Qualidade do Programa Gaúcho da Qualidade e Produtividade”, em Porto Alegre. Cerca de mil pessoas na plateia ouvindo-me falar sobre inovação. A palestra foi um sucesso, mas em nenhum momento me senti à vontade naquele palco. Tinha mais alguém lá comigo, o tempo todo.

Um motoqueiro e um cano de revólver…

Sempre termino a palestra com um apelo à plateia para que lute contra a percepção de que o Brasil é um país de risco. Eu digo que a exposição diária a doses maciças de violência, principalmente pela televisão, faz com que tenhamos uma imagem muito pior da realidade. Sempre defendi essa tese com paixão.

Mas naquela manhã, enquanto tentava dizer aquelas palavras, senti que estava sendo falso.

Aquelas palavras cabiam na boca de um outro Luciano. Um Luciano que, de certa forma, morreu na Marginal Pinheiros, quando o que até então era uma percepção, passou a ser realidade.

Meu relógio se foi. Eu compro outro. Meu celular se foi. Eu compro outro. Meu lap top se foi. Eu compro outro.

Mas, como Don Facundo, o ladrão levou junto um pedaço de mim.

Que não dá pra comprar com dinheiro nenhum.

O Neco Ribeiro, que é palhaço profissional e participa do fórum de meu site, lembrou que o boneco substituto do Don Facundo chamava-se Don Pedrito. Mas não tinha a mesma graça. O Marco Piquini observou que Don Facundo era “meio safadão”, uma espécie de versão em madeira do Zé Trindade, humorista famoso na época.

Mas foi Marcílio Dias quem remeteu detalhes preciosos: “Eu conheci Don Facundo pessoalmente. Quando estudante, em Jaboticabal, cidade do interior de São Paulo, na altura dos anos 60, conheci Carlos Trujillo (esse era o nome do ventríloquo). Ele apareceu do nada. Creio que procedente da América Central. Morou no Hotel Municipal de Jaboticabal. Freqüentava nosso grupo de rapazes (ele era bem mais velho que a gente). E não era capaz de fazer a voz do boneco sem tê-lo em operação. Trujillo tinha também uma caveira, a quem emprestava sua voz: Dona Sinforosa que, à maneira de Franquito (cantor guri, de sucesso, naqueles anos), cantava ´Donde estará mi vida?´ Era tudo que uma caveira gostaria de saber! A sede de nosso ´clube´ era um conjunto de bancos na praça central, Nove de Julho. Não há muito tempo, com tristeza, li que Trujillo havia falecido.”

Antonio Mier escreveu: “O ventríloquo nunca mais foi o mesmo. Além de perder o boneco, perdeu a dignidade e acabou se entregando à bebida. Meu pai era enfermeiro em um hospital e me levou para conhecê-lo. Depois do sumiço do boneco, ele ficou arrasado, não teve mais forças para lutar contra o vício.”

Fascinante! Um estrangeiro misterioso que surge do nada, com uma ligação mágica com um boneco que desperta seu talento. Um dia o boneco é roubado e a mágica desaparece, fazendo com o que o ventríloquo termine seus dias em desgosto. Parece enredo de novela. E me remete a várias reflexões…

A uma festa em Pedra Azul, por exemplo, divisa de Minas com a Bahia, em 1976. Animada por um sanfoneiro, rapaz pobre, que toca com uma gana de dar gosto. São dez da noite e ele começou a tocar às sete. Seus antebraços, no ponto onde encostam no instrumento, estão vermelhos. E o bichinho tocando… Apaixonado por seu Don Facundo, o acordeão.

Ou então meu amigo Chiquinho, nos anos oitenta tocando guitarra na banda Reveillon. Viajando para todo lado, se apresentando horas e horas nos bailes. Uma maratona que entrava pelas madrugadas, sextas, sábados e domingos… Apaixonado por seu Don Facundo: uma guitarra.

E em outra oportunidade, num restaurante, um trio tocando jazz. Fabuloso. Quando param não resisto, vou falar com o saxofonista. Já idoso, uma simpatia. Dou os parabéns, ele agradece e me passa um cartão. É o Sabá, uma lenda da noite paulistana. Tocando até de madrugada, do jeitinho que faz desde os anos 50… Apaixonado por seu Don Facundo, um saxofone.

E então vem a mensagem de meu amigo Hans Hein, no fórum de meu site: “Luciano, o Don Facundo está EM você, não foi roubado, apenas vai ter que mudar, provavelmente, uma opinião, isto não é tão difícil assim.”

É verdade, caro Hans. Todos temos um Don Facundo. Que pode ser qualquer coisa que tenha o poder de despertar em você uma força mágica que te faz dizer: estou vivo! Essa tal “coisa”, quando é um objeto ou instrumento, é apenas um símbolo. Uma inspiração. O Don Facundo verdadeiro estava dentro do ventríloquo. E ficou lá para sempre, preso, pois talvez Carlos Trujillo não tenha percebido que o boneco era apenas um gatilho. Mas… só um gatilho? Será tão simples assim?

Claro que não. Bonecos de ventríloquo, saxofones, guitarras e acordeões existem aos montes. Mas só alguns têm alma.

A alma que foi roubada de Don Trujillo.

Felizmente, a minha continua aqui.