Po(D)ema #53 – O Faroleiro

25 julho 2013 Por Mundo Podcast
Po(D)ema #53 – O Faroleiro
  • Texto: O Faroleiro
  • Autor:Rebeca Serra
  • Interpretação: Débora Paiva (@debruxamiau)
  • Música: Marooned – Pink Floyd
  • Duração: 6min11s

Arte da vitrine: Rodrigo Sena

O Faroleiro

Houve, certa vez,
numa pequenina ilha,
no meio de um mar qualquer,
que não estava na rota de lugar algum
nem era cercada por recifes,
um farol
e um faroleiro.
É sobre ele que vou contar :
um homem sem idade, sem rosto,
sem nenhuma característica física marcante…
Porém, possuía uma alma especial, alegre e sempre desejosa de
celebração com a vida;
por isto, mantinha o farol constantemente aceso, emanando a forte luz
que girava, se espalhando a rasgar a escuridão do céu,
sinalizando aquele pedacinho de mundo onde a harmonia imperava.
Assim sendo, todos que, ao acaso, por ali passavam, paravam e
compartilhavam histórias com o faroleiro, cuja existência e
receptividade passaram a ser
divulgadas por tais errantes navegantes.
Entre os marujos de todos os portos, aos poucos, tornou-se hábito,
quando possível, a visita à pequena ilha e ao faroleiro.
Deste modo,todas as noites havia pelo menos um barco ancorado no cais
até que, numa noite em que não houvera nenhuma visita,
nem mesmo da lua ou das estrelas,
o faroleiro sentiu uma leve compressão no peito e pôs-se a olhar o mar
tão cheio de mistérios…
E, nesses mistérios, os seus olhos se perderam;
o peito lhe apertava mais e mais…
Acabou por esquecer-se de acender as luzes,
entregando-se completamente à escura solidão.
Rolavam-lhe pelo rosto, lágrimas quentes e doces,
sorvidas pelo sorriso melancólico que estampava.
Foi quando, por uma das frestas da torre, entrou um anjo de longas asas
brancas e olhos brilhantes,
para anunciar em voz solene :
“É o amor”
Depois, partiu, confundindo-se com as aves marinhas que revoavam sobre a
enseada.
Contudo, antes da sua partida, entregou um curioso espelho ao visitado
que, com resistência, passados alguns instantes, pôs-se a mirar.
O que viu ?
Sim, o anjo não errara,
ali estava a face do amor.
Também o devaneio, o desejo, o prazer, a loucura de braços dados com a
lucidez, a doçura, a ternura infestada de alegria,a dúvida , o
entusiasmo, o vinho e o pão da vida!
Pela primeira vez, sentiu-se só.
Sua alma aprendeu a viajar pelos céus e infernos, conhecer querubins e
demônios…
Banhou-se de angústia mas, o bravo faroleiro não era dado à covardia.
Reacendeu as luzes do farol para que se espalhassem pelo céu, chamando
os amigos a compartilhar com ele tantas coisas novas que havia
apreendido e compreendido.
Porém, o tempo foi passando e ninguém retornava à ilha
pois, de alguma forma, souberam que algo havia mudado
e as pessoas não gostam de mudanças.
Ele ignorava e, mesmo cheio de interrogações, não desistiu.
Mantinha as luzes sempre acesas, à espera de visitantes;
colhia frutos e água de chuva, tecia redes com fios de ouro e construía
castelos de areia ouvindo a música dos búzios.
Todas as noites, renovava a sua esperança reacendendo as luzes do farol
mas… ninguém, absolutamente ninguém, retornava à ilha.
E agora, quando, do alto da torre, o faroleiro olhava o mar, seus olhos
se embaçavam, sua boca conheceu um sabor amargo que impregnava a saliva,
o peito não só lhe apertava, como parecia incendiar-se.
Já não colhia água de chuva, só via tempestade;
seus pés pisavam e quebravam os búzios sobre a areia enquanto andava
perdido a procurar e só ouvia o uivo dos ventos;
não fiava nem tecia;
deixou de acreditar…
Enfrentava, em seu íntimo, a tortura da angústia;
conheceu o ódio e, com sua tinta,desenhou lindos poemas, escolhendo as
mais belas palavras;
colocou-os em garrafas e atirou-os ao mar
tão cheio de mistérios…
Então, veio uma noite como aquela,
sem lua, sem estrelas…
e ele, mais uma vez, pôs-se a mirar no espelho presenteado.
O que viu ?
Jamais se soube mas, endureceu seu coração, ressecou a sua alma e ele
chorou as últimas lágrimas que ainda tinha…
Naquela mesma noite, o anjo retornou à torre e anunciou :
“É o amor”
Depois partiu, confundindo-se com as nuvens do céu.
Ainda mais uma vez, o faroleiro pôs-se de pé e acendeu as luzes do
farol que velavam a sua espera desesperançosa…
Muito tempo se passou sem que as luzes se apagassem,
sem que jamais se apagassem…
mas…
quando as pessoas retornaram,
o faroleiro já não estava mais lá.