Po(D)ema #67 – Oceano São

14 novembro 2013 Por Mundo Podcast
Po(D)ema #67 – Oceano São
  • Texto: Oceano São
  • Autor: Erika Figueira
  • Interpretação: Erika Figueira (@erikapes)
  • Música: Título e autor desconhecido
  • Duração: 4min52s

Arte da vitrine: Rodrigo Sena

Erika Figueira - Oceano São

Oceano São

Cala teu santo, roube dele a aura e ilumine teus demônios, enfia um pau na boca do seu padre até que ele deseje ao invés do sangue e a cruz, morrer envenenado pela cicuta de Sócrates, salve novamente Barrabás, poupe a imagem de um pobre homem comum chamado Jesus, deixa ele partir em paz.

Deixe teu filósofo penetrar, aceite a tudo o que ele falar, só enquanto ele fala, depois perverta-o e lamba calado tuas feridas como toda mulher deveria lamber o falo.

Quando a fala nada mais disser, o santo diante de você se ajoelhar, o padre a si próprio apedrejar, chame o palhaço pra te fazer apenas, sem motivo algum sorrir, e sorria aproveitando um breve momento sagrado da tua preservadora demência.

Se aproxime de um profeta acompanhado de um rei e de um louco: Tudo vai perder o sentido ao ponto de você apenas sentir, não idiomas silábicos, não mais frases feitas, versos repetidos, memes dos homens embrutecidos… Ouça com a pele, reflita com os poros e dance ao som dos cheiros coloridos, se aproxime dos bichos com os instintos que só a extinta expressão é capaz.

Permita que seu empresário se encharque com absinto até ver fadas verdes ao ponto de você arrancar uma de tuas orelhas por não poder pintar tantos quadros… Morra infeliz e livre da pressão do sucesso (essa masmorra disfarçada de castelo).

Grite “Gracias a la vida” dançando com Pina, Bausch e também a Colada com a tequila de Violeta Parras… Olhe pra caverna e pro sorriso pintado por Leonardo esquecendo que ele rascunhou a proporção áurea… Sinta o ouro da idiossincrasia que é teu único bem tangível, se equilibre na tua assimetria.

Rodopie em círculos de furacões… Não se sinta envergonhado: CORRA ATRÁS DO PRÓPRIO RABO, ao seguir filas indianas você segue o dos cães cujo mesmo foi cortado.

Sinta que você pode como o maior dos gênios atingir o limite extremo da razão, vire de costas quando chegar perto pois lá estão o Unabomber, os meninos de Columbine, terroristas, famílias apavoradas, a cultura do medo… Conto um segredo: O carrasco da ignorância é o teu medo.

De que? Dos que cortaram a própria orelha? Os que foram levados pelas sífilis, pelas drogas, álcool? Medo do fracasso? Preocupação com a moral ou com a ética? Teme pelos inocentes que ao gritar por socorro, foram internados e eletrocutados? Nada. Nada…

Continua nadando, para no meio do teu oceano e mergulhe nas profundezas abissais… Você sempre temeu o louco oposto ao gênio, abriu mão do prazer em função do castigo, brincou muito quando era criança de polícia e bandido.

Mergulhe nesse meio até teu lábio arroxear, até estar bem próximo da sensação do teu ar te faltar. No oceano da vida não há afogamento no teu alto-mar, ele é que te mantém são, viva ao aprender a respirar como um peixe, para de ser fiel feito um cão… Em qualquer um dos lados rasos, teus personagens extremos vão mais do que às águas, te afogar.

Euler ETI Euler ETI